Palavras que Brotam

04 Maio, 2009

Get ready, "Set", Go!!


A impaciência com que aguarda o "set" faz lembrar situações em que o pescoço se vira e se estica ao limite para vislumbrar o interlocutor humano de um qualquer encontro marcado. Onda após onda, os passos aprendidos são treinados e repetidos em vagas sucessivas de sensações novas e verdadeiramente refrescantes...ou não estivesse a água a uns escaldantes 15º C.

Um...dois...três:surf! Eis a sequência-chave de um bailado que se quer harmonioso mas que exige vigor musculado, essencial à conquista da mais básica das sensações para os mais experimentados, mas que constitui o autêntico Santo Graal de qualquer aspirante: a conquista de uma posição bípede num pequeno pedaço de fibra. De uma ironia extrema é a sensação de como - de repente - regredimos até à nossa infância ou mesmo ao início da Humanidade e deixamos de ter como garantida uma posição tão natural como é a de estar de pé.

Instável, temperamental, difícil e - não obstante - fonte inesgotável de prazer...a palavra "prancha" só podia mesmo ser do género feminino.

Num instante, pleno de força, aproxima-se o "set", agigantando-se e trazendo consigo as esperadas ondas. Alguém grita, em tom de brincadeira: "Tsunamiiiiii!!!!" A respiração acelera, o corpo salta para a prancha e os braços começam a puxar a água para trás, alternadamente...a lânguida remada torna-se vigorosa, talvez para - respeitosamente - apanhar a boleia da massa de água que cavalga na nossa direcção ou quiçá, apenas para tentar escapar dali o mais rápido possível, dirão alguns espectadores maldizentes.
Marcada hora e o local do encontro, o desfecho é cozinhado em lume vivo: a uma vaga de dimensões consideráveis (pelo menos para o incauto aprendiz), junta-se uma vontade de ir um pouco mais além (tentando apanhar a onda na sua zona de máxima força) e polvilha-se com uma dose de chico-espertismo ("deixa cá ver se consigo" ou algo do género "Kelly Slater, eat this!"). A mistura não tarda a transbordar e deitar por fora, não sem antes - lá do alto - se balbucie entredentes uma expressão lapidar (o sempre oportuno e multinacional "Oh, ssshit!!" ou o mais português, carinhoso e maternal "Mãezinha...!") antes de nos precipitarmos (bem lá de cima) para uma rápida visita pelo fundo do mar, qual pedaço de roupa dentro da máquina de lavar. Um...dois, três. Conta-se agora novamente, mas desta feita, são os segundos que passam, vagarosos, na escura incursão pelo universo subaquático. Refeito da inesperada (seria?) viagem, é tempo de voltar a tentar. Uma e outra e outra vez.
Aprendida a dura lição e retiradas as devidas ilações, retorna a labuta dos passos e da correcta postura que permite os breves os instantes de liberdade tão arduamente conquistada, e - talvez por isso mesmo - tão saborosa. Entre o 25 Abril e o 1ºMaio, aprendeu-se uma nova forma de a disfrutar.

No local de onde partiram as Caravelas, rumo ao desconhecido, descobriram-se sensações, formas de estar na vida, amizades e ganas de repetir a experiência. Surf's up!!






Foto: Praia da Cordoama, Sagres

22 Abril, 2009

O rapaz do trapézio...(voa)dor

A génese e filosofia são orientais, embora a paciência não seja uma forte qualidade do...paciente. A avidez com que se engolem degraus, dois a dois, denuncia a chegada em cima da hora e diagnostica que da forma física - apesar de perdida pela já longa paragem - ainda subsistem resquícios, cada vez mais ténues. Tempo agora para retemperar forças e equilibrar yin e yang com vigorosa massagem medicinal, em instável fronteira entre prazer e dor, com maior pendor para a segunda.
A maior calma, à saída do edifício, evidencia progressos musculares e espirituais e permite a apreciação de traços arquitectónicos, pormenores artísticos e resenhas históricas.
Por estes dias, trata-se do trapézio; sem rede, mas com a convicção de que o pior já passou.


Fotos: Ateneu, Lisboa

www.esmtc.pt/

09 Abril, 2009

Mudança de Estações

É já no próximo dia 18 de Junho que o Coliseu de Lisboa virá abaixo (esperemos que apenas no sentido figurado:-) com a actuação dos Dream Theater, dando as boas vindas ao Verão, prestes a chegar. Aliando o virtuosismo dos seus componentes - com destaque para o trio composto por John Petrucci (guitarra), Jordan Rudess (Teclados) e o "monstro sagrado" Mike Portnoy (bateria) - à opção por sons pesados mas, contudo, melódicos, os DT são diferentes por opção própria e não apenas porque sim. De dificil etiquetagem - precisamente por não se enquadrarem propriamente em nenhuma corrente mainstream - a sua sonoridade metálica progressiva nem sempre opta pelo mais fácil para o ouvido, antes enveredando por experiências sinfónicas e obrigando-nos a por elas viajar, decantando-as antes de as consumir. Tal como um paladar apurado e sofisticado não se obtem de um dia para o outro, também o ouvido necessitará de alguma persistência para os acordes que ecoarão pelas portas de santo antão. O resultado final será sem dúvida merecedor da energia dispendida e estará à altura das expectativas criadas.
Seja ao som de "Pull me under", "As I am" ou "Home" ou dos covers irrepreeensíveis com que a banda costuma presentear os seus convidados, avizinha-se, pois, um convívio entre amigos de longa data, com ambiente ultraleve em noite de sons pesados! \m/


19 Março, 2009

Pater


Ao meu mais querido amigo, ombro confidente, fiel cúmplice e sábio conselheiro.


...Porque hoje é um dia como os outros, mas não digo nem escrevo vezes suficientes, o quanto te amo e o quanto és importante para mim.

11 Março, 2009

A Sombra dos Abutres


Rio De ouro, gordo, que corria lá em baixo feito fio de água verde, como o que tinhas ao pescoço. Contorcia-se e abraçava as margens, como tu a minha cintura, feita porto de abrigo do frio que se instalava. A vista, partilhada com as grandes aves que pairavam por cima de nós, cortava-nos a respiração e...por instantes, também elas pareciam extasiadas com a degustação de tão recheado repasto visual, aproveitando a brisa e circulando pelos ares.
Naquele fim de tarde perfeito, nem a sua sombra necrófaga enegreceu o quadro; antes o iluminou, transmitindo-lhe uma aura quase surreal. Também eu ainda pairo naquele instante, na suave brisa fresca da memória.
Naquele fim de tarde perfeito, o cheiro do teu abraço bastou-me para proclamar eterna felicidade e brindar, satisfeito, com os grifos, a suprema simplicidade do amor: a paz do silêncio, a força da paisagem e o teu olhar.
Penedo Durão, Douro Internacional

10 Dezembro, 2008

Pé ante Pé

À medida dos pensamentos que nos transportam, assim a aeronave transportava os "divers", desafiando a gravidade a mais de 12.900 pés.
Menos de 20 minutos depois e com excepção de um ou outro espírito menos convicto do passo a dar, as hostes animam-se no instante em que o tecto é alcançado. 12.950 pés. A um passo dos 4 km de altitude, a porta é aberta e o vento fresco saúda-nos.
Esgueiramo-nos para fora do aparelho e aguardamos o encontro com o vazio que nos preencha as medidas. Num instante, o calafrio na espinha; a vertigem da aceleração - tantas vezes experimentada mas nunca saboreada desta forma - invade-nos.
Os gritos, polvilhados de adrenalina e regados de um prazer indescritível, ecoam em surdina nos recantos da atmosfera. O sorriso, esse, é largo da satisfação e ampliado pela deslocação de ar. Ou seria o contrário?
A mais de 250 km/h, a mãe terra espera-nos lá em baixo, de braços abertos para nos receber. Lembramo-nos do pára-quedas e rezamos para que não abra...já! Nada feito. Os 60 segundos de pura alegria são interrompidos por um leve puxão que nos faz acordar e que nos liga - literalmente - à vida. O tempo presenteia-nos com uma magnífica paisagem de dezenas de quilómetros em redor e é agora...tempo de o saborear por uns minutos, antes do suave beijo de reeencontro com o solo. 
Sentimo-nos vivos, é certo...mas menos que uns minutos antes. Libertam-nos do arnês e demais equipamento, mas sentimo-nos aprisionados. A verdadeira liberdade, essa, ficou lá em cima: pairando num sorriso largo, puro. Pé ante pé. 

Sky Diving. Évora, 22-11-2008



19 Novembro, 2008

Farinha do mesmo saco

Diga "33!". Eis o slogan de tempos idos, em que se apregoava que as farinhas não eram todas...do mesmo saco. Do produto, ficou o poderoso slogan; na memória, a mítica marca. Sim...porque é de marcas alcançadas de que se fala, por estes dias. Se Cobain, Hendrix ou Morrisson não a conquistaram, outros houve que por ela se ficaram...mas aí, cada um carregará a cruz que bem entenda e dará  - ou não - para esse peditório. Eu cá, não dou! :)

13 Novembro, 2008

Solto, o pensamento


Não há trovoada nem nuvem passageira que encubra o sol dos meus dias.
Não há discussão encalorada que sufoque o calafrio da visão da metade que me preenche, da parte que me completa, do líquido que me transborda as medidas.
...és tu...és sempre tu no meu horizonte e é rumo a ti que navego.

"O Beijo", Picasso

13 Fevereiro, 2008

Píncaros



O sal do suor mistura-se com a água, no primeiro gole ingerido ao passo que a respiração descompassada abranda lentamente com o beeper do heart rate monitor a "queixar-se" da tortuosa subida. Vitória. Silêncio absoluto, apenas quebrantado pelos aviões que passam ao longe e pelos moínhos que captam o vento como nós captamos o Sol e a magnífica vista. Tejo, Arrábida, Sintra...terras de sonhos, lugares de deslumbre agora avistados ao longe, em mais um Domingo de pedaladas fortes.
Foto: Lezírias, Tejo, Ponte Vasco Gama, Arrábida

25 Janeiro, 2008

O2

"O pensador", Auguste Rodin

Ar! Precisava de ar fresco. Inspirou profundamente e procurou expirar na mesma medida, em vã tentativa de dar o mesmo destino à tristeza que o apoquentava. Instintivamente, procurou o bloco que jazia no fundo do porta-luvas do carro e recuperou-o, puxando-o para si e encostando-o à testa.
Espartilhado entre sensações e sentimentos contraditórios, estava incapaz de comunicar sem ser através da caneta, agora debilitada pela pronunciada ausência. Cansaço. Sentia um cansaço imenso, próprio de quem havia vindo a carregar o peso de uma culpa que não lhe pertencia, mas que - ainda assim - lhe faziam transportar. A fadiga tinha-se vindo a instalar em cada poro da sua pele, qual nuvem negra cobrindo o azul da espontaneidade...qual pedregulho esmagando o solarengo jardim de emoções em que havia dançado vezes sem conta com o seu par.
"Poderia um ateu sentir descrença?" O ridículo da questão que o assolou provocou-lhe um efémero sorriso...pouco mais que um mero e reflexivo esgar que logo voltou a dar lugar ao semblante esfíngico, compenetrado e ausente. A pressão da perfeição esmagava-o e um mar de palavras mitigadas no qual também já não conseguia navegar parecia engoli-lo. Era um pouco como se, por mais vento que soprasse na vela, nunca fosse suficiente para prosseguir viagem a contento dos tripulantes.
"Não deveria ser tudo mais simples, mais espontâneo, mais leve, mais...pacífico? Não deveríamos dar mais graças pelo muito que temos e não deitar tudo a perder pelo pouco que nos falta?", pensou. As palavras que se soltavam no bloco de notas não lhe devolveram resposta, apenas o espírito decidiu remexer o baú de memórias musicais e devolver à vida aqueles acordes e letra profusamente ouvidos em tempos.
Bingo! A música simples e despretenciosa, na voz rouca de quem escreve e canta como quem conta uma história, fizeram-no cerrar os olhos. Sem forças para continuar a navegar naquele mar de discórdia - em que ondas revoltas desconfiam da própria espuma que criam ao embater na embarcação - deixou-se ficar. Há momentos assim, em que o vento sossega, o motor pára, os braços doridos não conseguem remar mais e o barco...acaba por soçobrar ante o exigente oceano.
Como a areia que se esvai por entre os dedos, quando demasiado apertada...como o pássaro que escapa para longe quando não o deixam voar...como as palavras e os sentimentos sufocados, perante a pressão de mais e mais e mais, assim a Natureza - a humana e a outra - tem os seus equilíbrios e escapes. "E ainda há quem não perceba isto!", exclamou para si.
Estava a fazer-se tarde. Muito tarde. A temperatura havia baixado. Muito. Era tempo de regressar ao louco corropio do Mundo, à vida que não pára, à busca do santo graal chamado felicidade...com cuidado, para não entornar o cálice. Um passo em frente ou dois passos para trás?

ONE STEP UP, TWO STEPS BACK

"Woke up this morning my house was cold
Checked out the furnace she wasn't burnin'
Went out and hopped in my old Ford
Hit the engine but she ain't turnin'

We've given each other some hard lessons lately
But we ain't learnin'
We're the same sad story that's a fact
One step up and two steps back
Bird on a wire outside my motel room
But he ain't singin'
Girl in white outside a church in June
But the church bells they ain't ringing
I'm sittin' here in this bar tonight
But all I'm thinkin' is
I'm the same old story same old act
One step up and two steps back
It's the same thing night on night
Who's wrong baby who's right
Another fight and I slam the door on
Another battle in our dirty little war

When I look at myself I don't see
The man I wanted to be
Somewhere along the line I slipped off track
I'm caught movin' one step up and two steps back
There's a girl across the bar
I get the message she's sendin'
Mmm she ain't lookin' to married
And me well honey I'm pretending
Last night I dreamed I held you in my arms
The music was never-ending
We danced as the evening sky faded to black
One step up and two steps back"

Copyright © Bruce Springsteen (ASCAP)

26 Novembro, 2007

Xaraz

Aqueces-me o coração. Aprisionado em ti, no frio dos dias livres que passo contigo, ruboresce de calor e alegria...mesmo quando confrontado com o gelo dos teus pés. :)

Explosão ensurdecedora de boas sensações no silêncio da paz das alturas, é assim que ouço o que me segredas e exulto, com as planícies e o Futuro à nossa frente. Com vagar...como o local impõe e a mente pede; que dias como este deveriam passar lentamente...ao ritmo suave da ave, pairando sobre o vento e contemplando a vida, lá em baixo.




Foto: Planície Alentejana, Monsaraz

30 Outubro, 2007

Spaces in between


Na expectativa de um novo ciclo, lugar aos pequenos grandes momentos. Deleita-se o olhar do alto do fim de tarde lisboeta, afaga-se a fome ao de leve e aplaca-se a sede, na companhia de convincente néctar e companhia certa.

Na mudança da hora, acertam-se ponteiros...




18 Outubro, 2007

"Link" my balls


Toda a vida é feita de mudança. Há ciclos que se iniciam e outros que se encerram; caminhadas que se juntam e se separam; destinos que se seguem, encruzilhadas que aparecem, obstáculos que se transpõem.

Num momento de mudança, equilibra-se o balanço que se faz, desponta a nostalgia dos momentos passados, verdeja a esperança num futuro melhor. Largam-se os "atalhos", abraçam-se os "intervalos", a preencher com vontade, emoção e garra. Guarda-se as amizades e os bons momentos passados, descarta-se a mágoa por algumas situações vividas e segue-se em frente, que a vida...a vida só tem esse sentido e só faz sentido dessa forma: em frente!

"Everyday is a winding road..."

Photo by Saphira: Fire Park Valley, Deserto do Nevada

14 Outubro, 2007

Tinta da China

O Sol vai baixo, escondendo-se atrás da ponte e fazendo brilhar as catenárias do caminho-de-ferro. Postal triste, este que consulto no expositor deste dia. Não o quero comprar. Afago a porta do carro enquanto este se desloca, rumo ao início de todas as coisas e turva-me o olhar, as lágrimas que dispendo, assim como por vezes me turva o pensamento, o amor que não negoceio. Por ti.
Os dias passam. Escrita indelével que não podemos apagar, por mais que queiramos. Há momentos que ficam...uns bons, outros nem tanto. Nesta viagem que se escreve, sem que uma qualquer borracha possamos usar, por vezes há que consultar mapas, pedir indicações ou mesmo recomeçar do check-point anterior. Na dúvida sobre qual o melhor caminho, salva-se a certeza do destino ambicionado. O carro segue a sua viagem. O Sol vai baixo. O céu limpo e azul contrasta com o rosto carregado e a alma cinzenta. Amanhã será melhor.

27 Setembro, 2007

Tem dias!


Há dias assim, em que nos sentimos extra-terrestres...figuras etéreas, pairando...
Estranhos a tudo e a todos, estranhamo-nos a nós mesmos e nem o nosso corpo nos parece compreender.
Há dias em que só nos apetece fugir para um lugar em que ninguém nos possa encontrar...apenas para ficarmos sozinhos e nos descobrirmos a nós próprios.
Nas alturas em que as profundezas são visitadas, uma música paira no ouvido, entranha-se no pensamento, acompanha as deambulações da alma, veste o estado de espírito, absorve e concentra o raciocínio...

"Wait in line
'Till your time
Ticking clock
Everyone stop

Everyone's saying different things to me
Different things to me
Everyone's saying different things to me
Different things to me

Woooohh
Do you believe
In what you see
There doesn't seem to be anybody else who agrees with me

Do you believe
In what you see
Motionless wheel
Nothing is real
Wasting my time
In the waiting line
Do you believe in
What you see

Nine to five
Living lies
EverydayStealing time
Everyone's taking everything they can
Everything they can
Everyone's taking everything they can
Everything they can

Woooohh
Do you believe
In what you feel
It doesn't seem to be anybody else who agrees with me

Do you believe
In what you see
Motionless wheel

Nothing is real
Wasting my time
In the waiting line
Do you believe
In what you see

Ah and I'll shout and I'll scream
But I'd rather not have seen
And i'll hide away for another day

Do you believe
In what you see
Motionless wheel
Nothing is real
Wasting my time
In the waiting line
Do you believe
In what you see

Everyone's saying different things to me
Different things to me
Different things to me
Different things to me
Different things to me

Everyone's taking everything they can
Everything they can"

In the waiting line - Zero 7
imagem: Sem Título, Keith Haring, 1981

23 Agosto, 2007

Dia bom



Olho-te, enquanto dormes. Hesito em te tocar e apenas te devolvo o leve sorriso em finos traços de sonhos que me ofereces, ainda que tu não me devolvas o meu braço que - soterrado em doces embalos - jaz, debaixo de ti, sem reacção ou formigueiro de vida. Com a mão que me resta, coço de baixo para cima, a barba por fazer que - incrustada na face e em tons levemente alvi-negros - me vai lembrando que o tempo, afinal, passa - inexorável - ainda que a gillette não passe por estas bandas há algum tempo.
Lá fora, o Eléctrico anuncia a sua chegada, qual expedição de salvamento que me resgata o braço, no preciso instante em que te mexes e a cortina dançante me vê a soprar um beijo na tua direcção.
O sol vai subindo a parede e a mim...a mim só me apetece descer a tua calçada de pedra nua, passo a passo, sem pressas...mas ainda não. Inclino o olhar para a frente, abro um pouco mais o sorriso para a brisa matinal que a janela expele e sinto que despertas, linda, como a manhã. Fecho os olhos sem sono, mas com vontade. É a tua vez de descobrir o dia que lá fora floresce, o eléctrico que passa, o contraste da minha pele nos lençóis da tua cama, o meu corpo junto ao teu, a felicidade de pequenos momentos como este.
Sinto o sopro de uma frase fresca, nas latitudes do meu ouvido e enquanto abro lentamente os olhos penso como, por vezes, uma expressão pode dizer tanto. É bom viver, por dias destes.

Foto: Carris

www.carris.pt



17 Agosto, 2007

Engenharias Marginais

Sentado na barcaça de transporte de materiais para o rio, o engenheiro bebia mais um trago da cerveja oferecida - instantes antes - pelo pessoal do estaleiro. Esperava e exasperava - em vão - pela resolução da avaria do satélite que lhe havia de transmitir as coordenadas correctas para a implantação dos pilares principais da ponte que procurava construir. Olhava a jusante, procurando um ponto de apoio, mas a neblina - que teimava em persistir - impedia-o de o fazer. De tal forma era, que por vezes tinha a sensação de que ele próprio é que não tinha capacidade de enxergar, cego que estava pela sua abnegação à causa de unir as duas margens. Afinal de contas, era tudo o que desejava. Castigado pela fria brisa que soprava rio acima, aconchegou a gola do blusão ao pescoço, assolado por questões que pareciam ultrapassá-lo, não obstante todo o seu empenho.
"As águas podem ser turvas; as correntes, perigosas; os ventos, fortes e gélidos; os solos, arenosos e movediços e a zona, sísmica. A todos os desafios se pode dar resposta; a todos se pode enfrentar com o sorriso intrépido da determinação vincado na face e a vontade férrea de estreitar laços...mas como construir pontes, quando uma das margens insiste em mover-se e afastar-se da outra? E - por mais flexivel que se procure construi-la - haverá estrutura que resista?"
Foto: Lusoponte
Ponte Vasco da Gama: Viaduto Central, Colocação da primeira viga

03 Agosto, 2007

Onda Média


O barulho das ondas embalava-o, aconchegado que estava na sombra feita cama e tendo a suave brisa como coberta. O queixume de uma criança ecoava, ao fundo, sem que conseguisse ou sequer tentasse decifrá-lo. Suspirou fundo. O dia amanhecera belo e ele tinha decidido aproveitá-lo na sua plenitude, logo desde as primeiras horas de sol.
Lançou o olhar semi-cerrado - próprio da languidez do momento - à mochila e ao moleskine que, lá dentro, aguardava pacientemente nova vaga de palavras, fossem elas contar sumarentos capítulos, descrever interessantes ficções ou simplesmente desfiar pequenos novelos de nadas...momentos non-sense de aparente despreocupação e paz.
Apeteceu-lhe escrever. O dia sorria-lhe e a companhia proporcionava agradáveis gargalhadas, de quando em vez. Apenas a ausência daquele olhar (de quem guardava já saudades), o impedia de tocar a perfeição. Voltou a inspirar o ar de maresia, pousou a caneta e abandonou novamente o corpo ao embalo das ondas. Afinal de contas, havia ainda que pedalar mais 45 km de regresso a casa. Nada que o assustasse ou fizesse esmorecer a beleza de um dia que, para ser perfeito, só lhe faltava a suave convivência daquele sorriso inebriante, de mão entrelaçada na areia e pontual queixume...como o da criança, ao longe, que se havia finalmente silenciado, devolvendo ao mar a palavra, num discurso que fazia sonhar.

24 Julho, 2007

Viagem de Fé

Mapa Mundi, de Ptolomeu
«Fé é o mesmo que acreditar ou confiar , geralmente por questões emocionais; por algum motivo geral ou pessoal, por alguma razão específica ou mesmo sem razão bem definida(...)», in Wikipédia

«Fé
s.f.
do latim fide, confiança
(...)
crença, convicção em alguma coisa ou alguém(...)», in Texto Editores

Quero que me descubras, enquanto me perco nos trilhos da tua pele e sorrio perante os caminhos que imagino percorrer em ti.
Quero navegar-te, instrumentalizando as minhas mãos e os teus olhos, quais astrolábio e estrelas, numa viagem ás profundezas do teu ser.
Quero descobrir-te; passar a prova(ção) nos mares revoltos dos teus humores; atingir a paz estratosférica dos teus carinhos e nela ficar a orbitar...
Quero que acredites. Quero que no meio da incredulidade que marca os dias que vivemos, no meio da descrença que o Mundo nos inspira, em redor das desconfianças que outros instigam...acredites nesta viagem; não como um qualquer dogma de uma qualquer religião, mas apenas com a fé com que a sinceridade e expontaneidade de pequenos nadas nos pode bafejar.
Enfim, quero-te.




09 Julho, 2007

A praia pode esperar


Uma semana antes das tão ansiadas - e por diversas vezes comprometidas - férias, o reencontro com as quentes areias e frescas águas foi de novo adiado. Desta feita, o bronze da pele e os óleos solares cederam perante os óleos, os gessos, as telas, o ferro e muitos outros materiais utilizados na concepção das inúmeras obras de arte arrecadadas por Joe Berardo, na sua vasta colecção patente no CCB.
Se nas zonas dedicadas à arte minimalista e ás correntes de Warhol e companhia, o exercício de procurar manter o espírito aberto a outras formas de arte foi testado ao extremo em algumas peças visionadas (e ainda assim algumas vezes com claro fracasso), foi no piso intermédio que a atenção se prendeu e os sentidos mais reagiram, perante a área dedicada aos surrealismos. Ainda que as duas obras de Picasso estivessem confinadas a um estreito e sombrio corredor de passagem, o que só se pode justificar pela tentativa de limitar os tempos de paragem e contemplação dos visitantes - e ainda assim, é criticável - foi tempo de alargar um pouco mais os leigos conhecimentos, descobrindo algumas interessantíssimas obras de outros seguidores desta corrente artística, como Magritte ou Dominguez. Oportunidade ainda para vislumbrar importante espólio fotográfico do magnata, lamentando não ter a oportuna companhia de amizades mais versadas na área e que certamente poderiam dar uma perspectiva mais enriquecedora do que se observava.
A procura auto-didacta do conhecimento artístico vai-se procurando fazer assim: um tactear despretencioso e um olhar genuíno, contemplando o grotesco e o belo, sempre com sede de conhecer mais.
"O Beijo", Óscar Dominguez(?)

05 Julho, 2007

Corrente Ascendente


Voo ao teu encontro para me aninhar em ti...porque me queres tu cortar as asas?
Alimento-me dos nossos sentimentos um pelo outro...porque me ofereces as migalhas das tuas incertezas, o veneno dos teus medos?
Aqui me tens. Sem restrições, sem jogos, sem dúvidas, sem mácula. Apenas para ti. Porque me afastas tu?
Não tenho medo. Não tenho medos. Derroto, destruo, esmago quem ou o que me aparecer pela frente. Combato exércitos, venço batalhas, ganho todas as guerras...apenas não as posso travar sozinho. Preciso de ti a meu lado...
Julgamentos? São para os réus. Nós apenas somos testemunhas do que cresceu entre nós.
Mais certezas? Talvez apenas a da nossa derrota, no dia em que finalmente voar para longe, com o olhar turvo, a garganta seca, pejada de lágrimas e as asas cortadas, num vôo rasante que me leve de volta às frias e espessas paredes da indiferença, ás alturas seguras do sentimento mediocre e comedido.
Digo, faço, sinto, demonstro. De que mais precisas? Que mais posso eu fazer para que venhas ao meu encontro e te juntes a mim na caminhada da vida? Anda...afasta essas nuvens negras e vem para aqui.
Alcança-te. Alcança-nos. Ultrapassa as barreiras. Excede os limites. Quebra as regras. Abre as asas. Voa comigo.
"A oferenda", Picasso

30 Junho, 2007

Metalli"K"a

\m/
Perdida a actuação dos Stone Sour em prol da exigente vida laboral, foi já ao som das guitarradas de Joe Satriani que se procurou aplacar a fome e a sede trazidas para dentro do recinto. A noite caiu, ventosa, questionando o porquê de - uma vez mais - se ter trazido apenas uma t-shirt vestida. Num verdadeiro concerto para conhecedores, os Metallica brindaram a assistência com quase 3 horas de um espectáculo poderoso, mesmo para aqueles a quem os acordes mais pesados não dizem muito. Esquivando-se a alguns temas julgados incontornáveis por muitos, a banda californiana foi verdadeiramente "ao baú" retirar inúmeras canções dos primeiros álbuns que fizeram as delícias dos mais ferrenhos e puristas adeptos destes monstros do Metal.
Tende-se a esquecer que as bandas são compostas por músicos e que estes são pessoas como nós, com qualidades, defeitos, alegrias, tristezas, dias bons e menos bons. Não colocando em causa o profissionalismo nem o virtuosismo da banda, diria que no Rock in Rio os Metallica estiveram ao seu mais alto nível, fruto, quiçá, da - ainda maior - moldura humana ou de um dia mais inspirado, ao passo que no Super estiveram em noite mais...contida. Terá sido a conjugação do factor humano (músicos e público) a fazer a diferença (a tal diferença que faz com que os concertos sejam momentos mágicos e não haja dois iguais) ou apenas um certo...dispersar de atenções por parte de um ou outro membro da assistência a provocar esta impressão? :-). Certo, certo é que o tempo foi dado por bem empregue e nem o vento estragou o momento. Afinal de contas...nothing else matters! :-) \m/

25 Junho, 2007

Horizontes...

Guardo o teu sabor nos meus lábios e o teu cheiro nas minhas mãos...guardo-te no meu espírito, enquanto aguardo que me guardes em ti e te faças minha, da mesma forma e proporção que eu já sou teu.
Guardo na alma a esperança da tua velhice, o sorriso do teu rosto na minha face e o doce do teu olhar no meu. Tudo. Quero guardar tudo e nada mais que isso...porque é isso mesmo que te ofereço. Porque é apenas isso que desejo dar e receber: a plenitude de ti...uma paisagem a perder de vista, onde possa espraiar o meu amor, espalhar o meu carinho, estender a minha mão...onde guardo o teu cheiro e te ofereço o meu coração.


"Bailarina posando para fotografia", Degas

17 Junho, 2007

Certezas

Não procuro o conforto da mediocridade certa, mas antes a certeza do verdadeiro amor.
É a ti que me ofereço, em chamas, chagas...à flor da pele.
É em ti que deposito o meu coração.
Cristall Falls, Vancouver Island

"Quero ir ao fundo do sonho,
quer seja poço ou clareira,
fonte ou réstea derradeira
de esperança.
Quero saber todas as coisas que há para ver,
mesmo as que fazem sofrer,
como eu sei.
E logo deixar de lado
a ilusão
como pedra que se arrasta
e nos parte o coração."

Guy Lucas

12 Junho, 2007

Alterações Climáticas



Ouvia-lhe a voz e sentia-lhe o timbre das palavras na garganta, plenas de intensidade.
A uma ténue linha de distância, cada som proveniente daquelas cordas vocais soava-lhe a acordes de uma melodia que ainda não conhecia muito bem, mas que definitivamente lhe tinha ficado no ouvido e no coração. Eram meros decibéis, mas - emitidos em determinada frequência - pareciam ter tido poder suficiente para atravessar as paredes que tinha erguido diante de si, por mais bem isoladas que as julgasse ou por mais bem impermeabilizadas que parecessem estar ao frio na espinha que o calor das palavras dela lhe provocava.
As alterações climáticas no seu espírito haviam provocado um degelo de sentimentos há muito guardados no glaciar da sua alma e estavam agora - sem dúvida - na agenda do seu pensamento.
A curto-prazo, o quente abraço ansiado certamente provocaria uma subida generalizada do nível do mar de emoções que o banhava. Bendito efeito de estufa...

Glaciar Portage, Alaska.
Photo: Gary Braasch

06 Junho, 2007

Foco


Ferem-me, os vértices dessa figura geométrica. Corto-me nas arestas desta paixão que - de tão redonda - não consigo explicar por teoremas ou teorias. E, no entanto, demonstro-a, provo-a...mesmo sem te ter provado; Tomei-lhe o gosto agri-doce na boca...ainda antes de ter sentido o sabor dos teus lábios nos meus.
Não pára de me espantar, a fome que tenho de ti e como sorvo cada segundo da tua presença com a sofreguidão de quem há muito não degustava tamanhas sensações. Nessas alturas - em que o tempo voa e o mundo pára - sacio a minha sede, bebendo da palma da mão que recebe a tua. Nesses instantes - em que os teus olhos são o meu universo - nada mais vejo, envolto que estou no manto do teu abraço.
Tudo o resto é ruído, porque no silêncio de um olhar de mil palavras feito, nada mais há do que uma imensa paz, um sorriso de felicidade, uma terna alegria de viver.
"O Beijo", Rodin

29 Maio, 2007

E(femme)ra

Corro pela aurora, sentindo o vento fresco na cara e as poucas horas de sono no corpo. O caminho estende-se a perder de vista, ladeando o rio e levando-me para longe. Para trás ficam os problemas, as preocupações, as amarras, as tristezas. Nestes instantes, em que apenas os primeiros raios de sol me conseguem atingir, sou livre.
Os quilómetros passam, voam, na correcta proporção dos pensamentos que fogem do meu controlo e galgam montanhas e atravessam vales para se deterem na tua pele. Respiro fundo a cada passada e imagino-te o cheiro. Apresso-me, sem te conseguir alcançar. O coração bate e a pulsação sobe, entre o suor que me abandona à sorte da tua imagem e a perspectiva da tua presença. Coisa efémera, a liberdade... Pois que - de pensamentos aprisionados em ti - corro de volta para o cárcere, imaginando que são os teus braços que me esperam e o teu regaço que me recebe, numa fresca manhã de Primavera.
"Ciprestes e estrelas", Van Gogh

24 Maio, 2007

Chagas (em dor menor)


PENSAMENTO DO DIA - «Se os post-it servem para nos lembrar de alguma coisa, o que usar quando algo - simplesmente - não nos sai da cabeça?»


Sufoco, com a máscara que uso para me esconder...sem saber muito bem de quem e muito menos porquê.

Asfixia-me, esta vontade que tenho de te agarrar num longo abraço de cinema...daqueles genuinamente foleiros, onde - depois de mil peripécias - o plano da câmara sobe e se vai avistando o Bairro que - em peso - nos aplaude, enquanto nós (que nos estamos a borrifar para eles e para a água que nos cai em cima porque a boca de incêndio resolveu rebentar) nos continuamos a beijar, sofrega e apaixonadamente.

Engasgo-me, na torrente de palavras que te quero dizer. E, por isso, calo...calo e sou golpeado por este silêncio que tanto quero quebrar.

Queima-me, este calor que sinto a cada mirada do teu rosto e assusta-me, este descontrole e - mais ainda - o bem que ele me sabe.

Será que sofro? Apenas com as saudades que tenho de te ver...

"Three Ballet Dancers", Degas

18 Maio, 2007

Geometrias da Vida


Cabelos escuros como a noite numa pele de lua em que as sardas se espalhavam pelo rosto como grãos de areia num mar de beleza, que se estendia para além da linha do nariz fino. Tinha uma graça própria do sorriso meio envergonhado que ostentava...ou assim lhe parecia a ele.
Esquadrinhava-lhe as formas, sedento de lhe conhecer melhor os conteúdos. Suspirava por cada olhar cruzado e cada tangente em que um virava a cara no preciso instante em que o outro o admirava, sempre de um ângulo diferente. Arquitectava planos, imaginava-lhe as linhas e construía cenários...incapaz de ver as coisas em perspectiva.
Todavia, teve de se conscencializar da inviabilidade dos projectos que havia desenhado na sua mente, quando percebeu que a geometria da vida lhe havia plantado um..."triângulo", no caminho. Procurou refúgio no seu círculo de amigos que o chamaram - tanto quanto possível - para debaixo da alçada da razão. E, contudo - hiperboles à parte - aquela parábola tinha-o deixado triste. Muito triste.
Por vezes (tantas), as mais belas ideias teimam em não sair da maqueta...

Photo: Thomas Mayer

07 Maio, 2007

Efeitos Secundários

Trajectos que se cruzaram numa fase irrepetível, mágica, da vida de cada um. Primeiro, são as expressões de admiração pelos rostos há muito não vislumbrados; depois, a descoberta das mudanças de aparência, sejam elas expressas em gramas, kilos, cabelos brancos ou rugas. Por fim, o abraço sentido aquelas amizades que o passar dos anos não enferruja e a ausência não faz desaparecer. Os olhares brilham e os sorrisos soltam-se, desprendem-se dos rostos ainda antes do vinho correr a jorros nos copos que se esvaziam apenas para serem de novo atestados, num vai-vém constante.
Se as indicações sobre os caminhos percorridos nos últimos anos serviu de aperitivo sempre apetitoso, o prato principal estava guardado para mais tarde, traduzindo-se no revivalismo próprio destes momentos. Amores e desamores, professores amados e odiados, conquistas desportivas, quedas e tombos, tiradas fantásticas e memoráveis, comédias e dramas etílicos, risos e choros. Histórias contadas vezes sem conta, por entre gargalhadas expontâneas e emoções puras, imaculadas...como os tempos recordados que já lá vão mas que cá ficaram, na memória e no coração de cada um de nós. Esse "ontem", sempre presente na nossa mente - que tantas saudades deixa e que tanto brilho nos faz chegar aos olhos - será sempre nosso. Apenas se desconfia que os próximos 14 anos venham agravar estes sintomas...secundários :).

"A garrafa de vinho", Picasso

04 Maio, 2007

Moleskine

Palavras. Desenhos. Esboços gráficos, pictóricos de episódios reais ou imaginários. Hemingway, Picasso, Sepúlveda...tantos outros! Todos o utilizaram para registar momentos...fossem eles esquiços da vida real ou simplesmente inspirações momentâneas, expontaneidades dignas de nota. Com a ajuda da tinta ou do carvão, liso ou pautado, esteve sempre lá, umas vezes qual barragem abraçando avalanches de criatividade concentradas na ponta de um lápis, de uma caneta, de uma esferográfica; outras tantas como catalizador, condutor de correntes literárias e artísticas menos...electrizantes. Prático, simples, encantador e com algo de misterioso para quem - de fora - observa o seu manuseio, que dele brotem as palavras, semeadas pela caneta e que dele floresça a escrita, adubada pelas emoções.

24 Abril, 2007

Vaga(s)


Vagas.
Uma após outra, as vagas sucediam-se, castigando rochedos e cuspindo espuma, num spray atordoante.
Naquela circunstância (como noutras), aquelas vagas (como outras) pareciam desaparecer, preenchendo o espaço vazio por instantes, para depois se esvaírem no vazio, esgotando a energia e imulando-se a si próprias numa fúria destrutiva. "Para tudo há um paralelo na Natureza", pensou.
Sentado de pernas cruzadas ao alto, divagava - com vagar - sobre a magnífica paisagem marítima e emergia de quando em vez da sua meditação, para a contemplar.
A vaga de sensações que o fustigava era tão intensa como a ondulação que - mais abaixo - se encaminhava para si e tão heterogénea como as correntes que a espuma ajudava a delinear.
A vaga de calor anunciada não se concretizara e o vento vagueava por ali, chamando por chuva e impondo-lhe um olhar (ainda mais) austero, a cada rajada soprada.
De dentro do seu coração, uma outra vaga continuava por preencher...pois por maior o furacão de emoções vividas e por mais electrizante a tempestade de sensações experenciadas, nenhuma corrente se havia ainda formado, nenhuma onda se havia ainda erguido, nenhuma espuma se havia ainda vislumbrado naquele mar amortalhado de ideias...vagas.
Foto: Finnish Institute of Marine Search http://www.fimr.fi/en.html

19 Abril, 2007

Flor de Pele


Sagrados escritos, aqueles em que confesso os meus mais profanos sentimentos por ti.

E se as palavras pecam por escassas e são parcos espelhos do que sinto, eis que a tua indiferença se reflecte no meu coração, que se parte em mil pedaços e se corta...vidrado que estou no teu regaço.

E se as trevas em que mergulhei não iluminarem o teu âmago, eis que me despenho nas alturas em que me deixaste.

E se agora recusas os ossos, tecidos, músculos, sorrisos, alma que antes chamavas em súplicas, eis que, sem serventia - pois mais nenhuma quero servir - tudo definhará numa longa espiral de tristeza.

E se ontem, hoje, amanhã, depois, sempre, te esqueceres do calor do meu abraço num invernal olhar gélido de indiferença, saibas tu, ao menos, o que mais quero: a lágrima seca da tua saudade, o rebuliço da paz de te ter junto de mim, o reflexo do meu amor nessa tua opaca caixa de pandora onde um dia me perdi.

"After the bath, woman drying herself", Degas

17 Abril, 2007

Separado à nascença - Dia 1


Roturas; contracturas; fibroses. Ecografia; ressonância magnética. Massagens; ultrasons; lasers. Termos tornados corriqueiros nos últimos meses. Por entre o corropio das consultas e dos tratamentos de fisioterapia que contrastou com a total e completa ausência de actividade desportiva, houve tempo para refrescar conceitos e aprender um pouco mais sobre os meandros da fisiatria.
Parcialmente debelada a lesão no gémeo externo da perna direita e com alta ainda muito condicionada, é tempo de enfrentar o impiedoso julgamento do espelho e constatar o muito que há a recuperar, para além da capacidade muscular da zona referida. Se o panorama não é agradável à vista, nem tudo são más notícias: a balança noticia pouco acréscimo, muito embora tenha havido uma grande perda de músculo traduzida até num aparente "emagrecimento" para quem observa. Ironias...Como se conclui, a indumentária (quase) faz milagres.
É tempo de reconquistar o bem-estar, aparência e os níveis físicos desejados e procurar aplacar - calma e paulatinamente - a enorme "ressaca" de exercício físico acumulada durante todo este tempo, tentando não ceder demasiado à ânsia para não estragar a recuperação. Se - para já - apenas o BTT na sua versão mais "soft" é opção, a natação e o atletismo continuam a deixar saudades. Muitas.
O dia 1 serviu essencialmente para "abrir as hostilidades" e foi marcado por uma leve sessão matinal de flexões e abdominais que só serviu para confirmar o que há muito se suspeitava: isto está uma lástima e muito pior do que parecia. Medo!! :)
A forma física segue dentro de (demorados) momentos...

12 Abril, 2007

1001 Razões


DÚVIDA s. f.,
incerteza em que se está sobre a realidade de um facto, sobre a verdade de uma asserção;
hesitação, suspeita;
objecção;
dificuldade em crer, incredulidade;
cepticismo;
escrúpulo.

Texto Editores


Porque sim. Porque não?
Por Tudo. Por Nada.
Porque há coisas que não se explicam. Porque há técnicas que se aplicam.
Porque ontem foi assim e hoje é "assado". Porque hoje é verdade e amanhã, mentira.
Porque agora estamos vivos e noutro dia podemos estar mortos.
Porque apetece. Porque estremece. Porque não aborrece. Porque...acontece.
Porque desperta. Porque a saudade aperta. Porque a natureza é incerta. Porque nos levamos à certa.
Porque é bom! Porque não é de bom tom. Porque adoro esse teu som...
Poque não me sacias. Porque me arrepias.
Porque faz transpirar. Porque faz sonhar.
Porque faz bem. Porque faz ir mais além.
Porque é que eu não me deixo de merdas?
Porquê? Eu sei lá porquê...

"Mulher com guarda sol", Monet

05 Abril, 2007

Calar o Silêncio


Toque...cheiro...sabor, embrulhados num beijo de cama.

Vontade...

Nada mais do que pele cobrindo outra, num leito desalinhado.
Um quarto desmazelado, salpicado com roupa amarrotada, rasgada, misturada com sapatos trocados, lançados, repousando nos mais recôndidos recantos...

Uma cómoda velha, lascada, coroada com uma vela semi-derretida que - servindo de único farol envergonhado na negra tempestade de emoções ao rubro - havia sido constituída testemunha...uma pálida testemunha, ondulando ao sabor das vozes roucas, abafadas, agudas e estridentes que ensurdeceram paredes e calaram silêncios na longa noite que se esvaía lá fora, asfixiada no abraço dos dois.

Sem compromissos, sem palavras, sem arrependimentos, o toque, o gosto, o cheiro e os sorrisos cúmplices foram trocados...num longo beijo de cama.


"Starry Night Over the Rhone", Van Gogh

23 Março, 2007

A luz da rua


Mirava aquele dorso despido que - antes agitado pelo rebuliço da paixão - serenava agora. Deitada de lado, de costas para si, ouvia-lhe a respiração pesada de quem dorme profundamente e sonha despreocupada. Hesitou em tapá-la. Olhava-a profusamente, sob a luz difusa que vinha da rua e lhe invadia o quarto, à medida do quadro vivo que lhe invadia os sentidos.

Por breves instantes, sentiu-se em paz num misto de instinto protector e de conquista...um pouco como se fosse o guardião do tesouro que ali repousava e que ele próprio havia tomado para si, repetidas vezes.

À passagem de um automóvel, virou-se sobre si. Os olhos - agora abertos - rapidamente se acostumaram à luz difusa que, entrando pelo quarto, lhe fazia companhia e lhe projectava sombras. Vultos. Desejos dos finos e delicados traços que antes julgou observar. Sob tons amarelados da luz que invadia o quarto, não havia tesouro; nem sequer arco-íris que o anunciasse. A tela estava, afinal, em branco. Vazia de conteúdo...mas pronta a ser pintada .

"Mulher Adormecida", Pablo Picasso

22 Março, 2007

Feito ao bife!

A agonizante espera, ante um destino que estava previamente traçado.Ei-lo! Debatendo-se na escaldante frigideira e convenientemente cercado pelos alhos e minado com sal, o pobre bife "gritava" por entre laivos de óleo fumegante e saltitante...




Sem apelo nem agravo...sem salvação possivel: estava frito!



Venham as próximas vítimas.

03 Março, 2007

Afinal...não vou


Mares revoltos de pensamentos, tempestades de emoções nem sempre agradáveis, céus de ideias cinzentas, expressados em rosto e sobrolho carregados, materializaram-se em algo menos positivo.

Será a mente um prolongamento do corpo ou o corpo um prolongamento da mente? Certo, certo é que o físico resolveu dar sinal de solidariedade para com os recentes estados de alma. Maleita antiga e nunca bem curada, de castigos desportivos passados, resolveu reaparecer...e em força. O prognóstico é reservado e o tempo de paragem é indeterminado. No horizonte mais próximo, apenas se vislumbra a terrível ausência na prova há muito aguardada e a necessária consulta médica especializada para - de uma vez por todas - juntar corpo e mente na caminhada para longe do mau tempo que os tem assolado...nem que seja - para já - a coxear.
"Shoes", Van Gogh

27 Fevereiro, 2007

Vem


Vem.
Vem, que te faço feliz.
Vem, que quero perder o Norte na rosa de vento que despenteia o teu cabelo.
Vem, que me sinto desnorteado pelo magnetismo das tuas coxas, que me chamam e me puxam para o fundo de ti, quais sereias homéricas de intemporais mitos.
Vem, que juntos viveremos incontáveis epopeias e escreveremos a nossa própria história, a vermelho fogo.
Vem, que adormecerei navegando nas ondas dos teus cabelos e acordarei contigo trepando à conquista do meu peito.
Vem, que me consumo se não te devoro e me queimo se não me entrego ás tuas mãos e não me lanço - como pasto - à chama da nossa paixão.
Vem, que fico amargo sem o mel dos teus seios e me engasgo sem o teu sopro no meu pescoço.
Vem, que te quero encontrar para me perder em ti.
Vem, que te faço feliz.
Vem.
Vénus de Milo

21 Fevereiro, 2007

Ashes to Ashes


A fuligem caía da lareira, misturando-se com os dois corpos entrelaçados, no chão.
Tinham resolvido fazer o velório das suas lágrimas e diluiam-nas, misturando-as entre si.
Carpiam o sangue derramado em feridas de peito aberto, sorvendo-o por entre saliva e suor. As gazes do contentamento eram fervidas no corpo um do outro e o casal aplicava-se numa verdadeira terapia de choque, consumindo a energia mútua em grande labareda, qual dança exótica de curandeiros seculares. Na manta feita mortalha, se entregavam...sem sacrifício algum.
Enterrar o passado e as mágoas bem fundo - qual entrudo sinistro - era o que se propunham fazer e - ao menos naquela noite - não descansariam até que a missão estivesse concluída e eles, exaustos, se deixassem dormir, abraçados...fingindo perpetuar a chama da paixão fulgurante com a da lareira que, próxima e crepitante, lhes haveria de aquecer os corpos molhados pela lascívia e a alma, arrefecida pelo vazio.
Com efeito, a quarta-feira, era - efectivamente - de cinzas...
Foto: Mark Lane

13 Fevereiro, 2007

Na companhia de Eddie


Eddie Vedder, companheiro de tantas tristezas e alegrias, cantava uma melodia à medida da melancolia que lhe ia pela alma. Tinha viajado no tempo e o título do álbum que segurava nas mãos era elucidativo. Sentia-se como se estivesse a olhar através de um grande espelho retrovisor. Via a adolescência irreflectida e os dias e os anos - uns mais distantes que outros - batiam-lhe na vista como flashes ou reflexos de raios de sol que o encadeavam. Divagou por "Animal", exorcizando a raiva interior que tantas vezes já sentira; "Jeremy" e "Given to Fly" acalmaram-no um pouco, preparando-o para "Nothing as it seems" e "Dissident", acordes mais de acordo com o seu estado de espírito. Decididamente, não era a noite indicada para ouvir "Alive", pelo que se deixou levar pela solidão magnética de "Nothingman". Se dúvidas houvesse acerca de que existe uma canção para cada estado de espírito, ali se desvaneceriam, esbarrando na letras e nos acordes que o embalaram noite fora...

Once divided...nothing left to subtract...
Some words when spoken...cant be taken back...
Walks on his own...with thoughts he cant help thinking...
Futures above...but in the past hes slow and sinking...
Caught a bolt a lightnin...cursed the day he let it go...

Nothingman... (2x)
Isnt it something? Nothingman...

She once believed...in every story he had to tell...
One day she stiffened...took the other side...
Empty stares...from each corner of a shared prison cell...
One just escapes...ones left inside the well...
And he who forgets...will be destined to remember...oh...oh...oh...

Nothingman... (2x)
Isnt it something? Nothingman...

Oh, she dont want him...
Oh, she wont feed him...after hes flown away...
Oh, into the sun...ah, into the sun...

Burn...burn...
Nothingman... (2x)
Isnt it something? Nothingman...

Nothingman... (2x)
Coulda been something...
Nothingman...
Oh...ohh...ohh...

A manhã seguinte saudou-o com um "Even Flow" ouvido a decibeis fora do comum, preparando-o para sons ainda mais pesados, mas aliviando-lhe o espírito.
Parte das energias negativas tinha sido dissipada pelo som...nada melhor do que fazer desvanecer agora o resto pelo suor, pensou. Aqui sofre-se quando se corre e quando não se corre, mas essas dores são as que menos doem. O primeiro sorriso expontâneo dos últimos dias invadiu-lhe as feições. Venham os Km!!

07 Fevereiro, 2007

Areia Fina

Foto: Fotosearch.com
Soprava em si a brisa da solidão, assolando-o. As frias paredes silenciosas procuravam, em vão, arrefecer-lhe os ânimos e calar-lhe a alma que gritava, ensanguentada ante a desilusão.
O grau da sua tristeza pedia meças ao do vinho que o acompanhava, ganhando-lhe por larga margem. Segurava a garrafa delicadamente, servindo o pequeno cálice pousado no chão para depois o erguer à consideração visual e olfactiva, antes de o despejar garganta abaixo em pequenos goles que se foram agigantando com o passar do tempo.
O cálice foi, a pouco e pouco, dispensado do seu serviço e a garrafa tornou-se, então, a sua única companhia naquela noite fria e solitária. Sabia que esta parceria "vinícola", à imagem de outras, não poderia durar por muito tempo, mas o ligeiro entorpecer de corpo e mente sabia-lhe bem naquela noite que tinha decidido dedicar à meditação. Só naquela noite. Só por aquela noite, onde - à imagem do chão a quem o vinho tinha dado vida - tudo lhe parecia fugir debaixo dos pés e por entre os dedos das mãos. Mundo feio, este sobre o qual se debruçava!
O dia seguinte haveria de ser melhor, pensou, imediatamente antes de ser subjugado pelo sono. A vida continua.

06 Fevereiro, 2007

Eu vou


21.097 metros de prazer, boa disposição, sofrimento, dor. Numa distância tão grande, há espaço para todas estas sensações. Para estas e muitas mais. 2 anos depois, eis-me de volta à competição por um lugar no Olimpo. OK, estou a exagerar...a ideia é terminar e, se possível, abaixo das 2 horas. A forma física está uma lástima e o tempo para treinar não abunda...mas estamos lá. É promessa garantida de uma manhã bem passada e de um olhar diferente sobre a cidade.
A inscrição está feita. Os quenianos que se cuidem! ;)

05 Fevereiro, 2007

Está lá tudo!


Hipocrisia. Cinismo. Desonestidade.
Hoje é um dia muito triste. Nem as palavras brotam. Apenas um misto de revolta, desilusão e profunda...tristeza.
A natureza humana não pára de me surpreender...pela negativa.
Quanto mais me apercebo dela, mais me apetece conhecer mais a fundo a obra de Shakespeare. Está lá tudo! Há que aprender...
A felicidade e boa disposição seguem dentro de momentos.
"Lying Cow", Van Gogh

29 Janeiro, 2007

IR(ao encontro do)REAL

As palavras voam da minha boca sem pedir licença. Pior: saem, apesar de eu as proibir de o fazer. Abandonam-me...à minha sorte e ao destino de te imaginar e eu...eu cá fico, sem palavras.
Penso no teu cheiro viciante e na forma como te arrancaria sorrisos, mesmo antes de acordares completamente; imagino esse olhar que me desarmasse, nas tuas mãos a despir-me e na tua boca a pedir-me - em ânsias - que te fizesse feliz novamente feliz.
Acabo sempre por falar em ti. Muitas vezes nem refiro o teu nome. Imagino-o, mas omito-o, na tentativa vã de fingir que não és tu. Não me consigo enganar, mas procuro asfixiar as palavras. Sem sucesso, mais uma vez. Elas brotam e fazem-me divagar em ti...como se te estivesse a arrancar sorrisos e me pedisses para te fazer feliz, novamente.
"O sonho", Pablo Picasso

27 Janeiro, 2007

Sábado, 11:40


"Vazio" - adj. que não contém coisa alguma; fig. fútil; s.m. vácuo
in Dicionário Português, Porto Editora

Mesmo sem ilustrações no dicionário, eu diria que a definição está lá perto...
Bolas! Faltei à lição nº 3: "O frigorífico não se enche sozinho".
Vou escrever 100 vezes no quadro. Quanto ao castigo, acho que ainda vou pensar mais um pouco sobre o assunto...trocando algumas breves impressões com a Carlsberg que sobrou. :)

16 Janeiro, 2007

Portas para outros Tempos

Existe sempre a tentação de nos deixarmos levar para os chamados "lugares comuns". Podia aqui ser dito que sem Jim Morrison não é a mesma coisa, que apenas dois dos quatro elementos originais da banda ainda fazem parte da Tour ou mesmo que os personagens em causa já estão muito velhinhos. Não descartando a possibilidade de parte ou mesmo todas estas afirmações poderem estar correctas, o certo é que parece sempre mais fácil e imediato dizer mal.
A curiosidade em ouvir - ao vivo - temas que acompanharam o nosso crescimento (alguns com história) e que ainda fazem parte das sonoridades regularmente escutadas, era enorme. Aliás, quem primeiro deu a conhecer o som dos Doors - ainda em vinyl - cedo ensinou que "a boa música é intemporal"! ;)
Se a entrada em cena ao som de Carmina Burana procurou electrizar o heterógeneo público que afluiu ao Coliseu, enchendo-o, o certo é que a voz de Ian Astbury pareceu perdida no meio dos acordes de RoadHouse Blues, fazendo temer o pior. Afinações de garganta e de mesa de mistura efectuadas, eis que os receios se dissiparam e foi tempo de disfrutar - por entre nevoeiro próprio destes ambientes e sonoridades - do espectáculo. E que espectáculo! É que, apesar do rude golpe de não ter sido tocado The End, afinal sempre terá de haver cedência ao pecadilho dos lugares comuns para dizer que "quem sabe, não esquece" e "velhos, são os trapos". Introduzindo pequenos arranjos musicais para vestir os temas idolatrados com novas roupagens, com Krieger em grande forma, Manzarek a fazer de speaker e Astbury numa interpretação sóbria, sem excessiva colagem aos timbres e tiques de palco de Morrisson, o público foi brindado com 2 horas de um Grande Som!
A noite prosseguiu, animada, pelos bares do Bairro Alto...untill the end. :)
http://www.raymanzarek.us/index.html

11 Janeiro, 2007

Atracção Subterrânea


O colorido do cachecol ficava-lhe a matar, combinando com as cores das linhas do mapa, dispostas em espinha para auxiliar os viajantes menos familiarizados com o traçado e com as estações...Lá em cima era Inverno, cá em baixo estavam em Entrecampos.
Os olhares cruzavam-se, no meio da multidão silenciosa, gritando por algo que os fizesse chegar à fala, para depois se desviarem, procurando outros pontos de observação meramente fictícios. Os corpos pareciam ganhar vida própria e a sua linguagem denunciava-os. Ela enrolava o cabelo de forma atabalhoada e nervosa; ele mexia no lóbulo da orelha, procurando disfarçar o indisfarçável encantamento.
O vício de se olharem nos olhos consumia-os, enquanto procuravam vislumbrar alianças nos dedos um do outro, rezando para não as descobrirem. As luvas dela sabotavam as tentativas sherlockianas para captar um brilho metálico nos seus dedos. "Rai's parta o frio!", pensou ele enquanto fingia consultar - uma vez mais - o mapa da rede do Metro.
A resposta veio duas estações depois, quando ela precipitou a saída para ir ao encontro de alguém que a esperava. Lá estava o senhor do anel, aguardando...
O beijo que ela lhe deu pareceu-lhe algo seco, mas também...a sua opinião poderia ser algo suspeita, admitiu.
Seria a efemeridade de umas quantas estações de Metro, apelo irresistível à atracção mútua? Quantas vezes e quantas pessoas já se sentiram atraídas no decorrer de uma viagem?
A carruagem seguiu. As vidas dos três, também.

04 Janeiro, 2007

Crepúsculo

Casa vazia. Impregnada de silêncios e sombras. Inertes. Os passos são propositadamente lentos, lânguidos, quase em surdina. A visita queria-se curta, mas acaba por reinar a introspecção, no olhar ausente que mira as paredes brancas.
Buscando caminhos a seguir, no infinito do nada, a mente atraiçoava-o, fazendo-o vislumbrar um sol de cores quentes e garridas. Nascimento ou ocaso? Fim de um ciclo? Princípio de outro? O pensamento pendia para um e outro lado de forma intermitente. Talvez o melhor fosse mesmo recomeçar do zero. A solidão daquelas paredes pareceu-lhe apropriada, assim como o branco imaculado da sua côr. Que lhe lave e lhe leve as mágoas.
O sol há-de voltar a brilhar, aquecendo o seu coração.
"Ninguém é tão velho que não espere que depois de um dia não venha outro"
SÉNECA
Foto: SOL @ Ponta do Sol, Madeira

29 Dezembro, 2006

Ouvi Dizer


Que a paixão e o amor não conhecem fronteiras nem distâncias; que estes tudo podem e que o afastamento físico e as separações não ditam o seu fim.
Será mesmo assim? Ganhará o coração ou a racionalidade? Perderão ambos? Perderemos todos?
E se em vez do seu fim, estivermos a falar do seu início, como será? Como seria?
"Les Demoiselles D' Avignon", Pablo Picasso

17 Dezembro, 2006

Caixas de Recordações


Caixotes que se amontoam no chão nú, ante paredes despidas.
Pertences pessoais. Testemunhos de um passado vivido. Dossiers com apontamentos, livros, roupas, fotos.
Fotos! As operações de trasfega de material cessam por instantes que parecem breves mas que se revelam prolongados, à medida que se vão desfiando recordações, soltando sorrisos ou pressentindo o quase aparecimento de uma lágrima, tal a variedade de emoções envolvidas e misturadas, no redescobrimento de alguns álbuns semi-perdidos nas gavetas do quarto e nos meandros da memória.
Viagens efectuadas. Amizades graníticas que o tempo não quebra. Infâncias passadas. Amores vividos. Paixões arrebatadoras. Desgostos de parte a parte. Excessos cometidos na juventude, que o aparecimento dos primeiros cabelos brancos não faz apagar.
Suspira-se de emoção, procurando soltar-se o pó e o nó que se acumularam na garganta.
Recordar (também) é viver.

13 Dezembro, 2006

Pensamento em Tarde Fria


Penso, logo, desejo. Imagino-te agarrada ao meu pescoço, de sorriso pendurado.
Olhos felizes. Por nada. Por tudo. Cumplicidade estranha esta, que rapidamente se entranhou entre nós. Nos passeios de mão dada. Nas piadas. Nas conversas. Nos silêncios. Na cama!
A tarde está fria e tu enroscas-te no meu casaco, fingindo abraçar-me...ou seria ao contrário? Afago-te o rosto doce e imaginário e subo aos céus. Sei que vou cair na amarga realidade. Mas não já...Logo penso nisso.
"La Pie, Effet de Neige", Claude Monet

06 Dezembro, 2006

Garimpo


Paixão. Sentimento raro nos dias que correm. Bem precioso que julgava extinto. Metal raro onde, por vezes, se forja o amor. É bom constatar que - bem lá no fundo - mesmo que por breves momentos e por mais que a mina tenha vindo a ser delapidada, ainda seja possível encontrá-lo.
Fica a esperança sentida de um dia haver a descoberta de um filão...
Photo: Black Hills, South Dakota

01 Dezembro, 2006

Travo amargo


Caminhava sem nexo, por entre um emaranhado de pensamentos. Linhas de código, processos funcionais, planos de formação, manuais. Muito a trabalhar, tudo a aprender e o tempo, esse, escorria-lhe pelas mãos.
Por ele, apenas esperava uma plateia de formandos. Ás vezes parecia ver neles juízes implacáveis, sedentos do deslize; da escorregadela no cuspo com que procurava colar conhecimentos.
As noites sucediam-se aos dias que se sucediam ás noites. O débito de sono acumulava-se e o cansaço também. Para trás ficavam as aulas de natação, os passeios de BTT nas manhãs de fim de semana e as participações nas "Meias"; as romarias às lojas de móveis, de electrodomésticos e de colchões. Tudo lhe parecia já estranhamente distante.
A tristeza amarga plantava-se-lhe no rosto, apenas aliviada pelo doce da voz do outro lado da chamada telefónica. Hoje, até isso tinha corrido mal. Bastante mal.
A tristeza era mar e mato e procurou escrever umas quantas palavras...fogachos de um certo estado de espírito que procurava combater, aliviando-se com o desabafo de uma escrita desinspirada e com o adocicado travo do licor com que se presenteava por entre mais um parágrafo desgarrado.
Só lhe saiam frases de merda, pensou. Nada que destoasse muito das últimas semanas de trabalho e do dia que havia acabado de passar. O licor é que ia pagando a factura. Deixa-o pagar, deixa-o pagar...
Foto: "Black Clouds of Monsoon" © K.L. Kamat/Kamat's Potpourri

18 Novembro, 2006

Está a apertar


Labour. Termo inglês que emana do latim "Labora" - instrumento utilizado para amanhar a terra.
Trabalho. Palavra que emana do latim "Tripalium"- chicote de 3 pontas normalmente usado para animar escravos mais depressivos.
Também os Nazis colocavam à entrada dos campos de concentração a frase: "O trabalho liberta"
Sintomático.

11 Novembro, 2006

2 U

Em câmara lenta, ela seguia-lhe os movimentos, como num filme de décadas passadas.
Ele nem sabia ao certo o que o tinha levado a ir buscar aquela canção ao baú, mas o leitor de mp3 segredava-lha.
Sob o Sol de Inverno, franziu os olhos e virou-se, procurando abrigo da claridade.
O olhar semi-cerrado de duro caiu lentamente por terra, amolecido pela visão do rosto dela e derrubado pelo seu sorriso, que voava para si, atingindo-o em cheio nos lábios.
Teria sido a escolha musical, obra do acaso? Ou o acaso, nestas coisas - como noutras - nada deixa ao acaso?
O que é certo é que, por vezes, existem canções que parecem ter sido compostas propositadamente para um momento...mesmo que o tenham sido há muitos anos.
Partilharam as mãos, os phones e seguiram caminho. Não sabiam para onde os levaria, apenas que queriam continuar a segui-lo juntos. Um passo a seguir ao outro. Afinal de contas, é assim que começam todas as grandes caminhadas...

You say you want
Diamonds on a ring of gold
You say you want
Your story to remain untold

But all the promises we make
From the cradle to the grave
When all I want is you

You say youll give me
A highway with no one on it
Treasure just to look upon it
All the riches in the night

You say youll give me
Eyes in a moon of blindness
A river in a time of dryness
A harbour in the tempest
But all the promises we make
From the cradle to the grave
When all I want is you

You say you want
Your love to work out right
To last with me through the night

You say you want
Diamonds on a ring of gold
Your story to remain untold
Your love not to grow cold

All the promises we break
From the cradle to the grave
When all I want is you

You...all I want is...
You...all I want is...
You...all I want is...
You...

"All I want is you", U2

07 Novembro, 2006

(Not even) 10.000 Days (to forget)


5 Novembro. Algo arrasou o Pavilhão Atlântico nesta noite e não se tratou de nenhuma intempérie ou de nenhum outro "instrumento" ;) ao serviço dos Deuses. E daí...
Foi envolto no aroma do "porro" que - ali ao lado - 2 casais de espanhóis faziam rodar num «círculo perfeito» ;), que ouvi os primeiros acordes daquele que foi (para mim) o melhor concerto do ano. De longe!
Desconcertante, marcante, são adjectivos que caracterizam a música dos TOOL. Uma verdadeira classe à parte. Algo que mistura rock, metal, ritmos tribais, sons indianos numa mescla de acordes conjugados, compostos e tocados por membros de diferentes bandas, para originar um som que tem tanto de melódico como de poderoso.
Se a execução virtuosíssima dos músicos já não foi novidade desta vez, a qualidade do som emitido surpreendeu e muito, pela positiva. Com esta malta não existe a desculpa "ah e tal, o som do SB-SR não é grande coisa; Ah e tal, a acústica do Atlântico não presta". A excelência da música impõe-se também ao som transmitido e foi exactamente assim que nos presentearam com 2 horas de êxtase, por entre um espectáculo de som e imagem (magnífico jogo de luzes e laser) para recordar.
Para apaziguar a àgua na boca deixada por "apenas" 2 horas de concerto e compensar por alguns temas não tocados, ficou a promessa de regresso "in the end of next summer". Estou lá batido!! \m/

www.toolband.com

02 Novembro, 2006

Chama

Beijar-te.
Consumir-me nas labaredas dos teus olhos.
Imolo-me de livre vontade.
Sou pasto para a chama da paixão.
Sou calor que se cola ao teu corpo, numa dança infindável.
Sou suor que te tinge de cores garridas num rubor de emoções.
Sou escultor que percorre a obra inacabada com as mãos, a tocar a perfeição.
Seguro-te no rosto e miro-te. Contemplo-te, enquanto te afago o rosto meigo e ardente.
Sou tudo e sem ti não sinto nada.
Sou teu.
"Odalisque with a slave", Ingrés

28 Outubro, 2006

AR - Aqui nascem as Leis

Foto: Pormenor do tecto da Sala dos Passos Perdidos, Assembleia da República
Conhecer as entranhas do local onde muitas decisões sobre os destinos do País são tomadas (ou não), também é cultura.
A visita - guiada - deu direito a vaguear pela sala dos "passos perdidos" (quem a baptizou devia saber o que queria dizer) e a pisar o hemiciclo, local onde os nossos ilustres representantes (ou não) se fazem ouvir (ou não) e se dirigem aos seus congéneres e a todos nós (ou não). Sob o olhar simpático, mas atento, do Major X (chefe da segurança da AR), foi possível tocar um dos cadeirões e ter um vislumbre do Poder, quando vimos o nº2 da República Portuguesa abandonar (escolha cruel do verbo ;) as instalações, acompanhado de 6 guarda-costas.
Tempo ainda para nos perdermos na exclusiva biblioteca "à antiga" - nos seus dois pisos de forro de madeira, mas com todo o conforto e tecnologia - e para deambularmos - quais fantasmas com cartão de visitante - pelos luxuosos corredores, decorados com diferentes quadros de diferentes autores de diferentes estilos e percorridos por intermináveis tapetes vermelhos, presentes também na escadaria e salão nobre.
Sim, sei que até parece mentira mas eles tratam-se bem...sim, sim, não estou a mentir... ;).
OK, confesso que com muito, muito esforço, seria capaz de trabalhar num local daqueles, rodeado de obras de arte, luxo e mordomias ;), mas o que me deixou deveras sensibilizado foram as senhas que são vendidas para o refeitório. Então não é que eu paguei 6 Euros por uma senha de almoço, mas os pobres coitados dos senhores Deputados só pagam 1,95 Euros!?
Lá está...afinal até existe Acção Social no nosso País...mas, se calhar, é capaz de estar ligeiramente enviesada...
NOTA: Obrigado, Jú, pela experiência inesquecível.

23 Outubro, 2006

À espera do temporal

"Cais-me nos braços e descubro que te conheço, afinal".
Mirava aqueles olhos de amêndoa e inebriava-se, enfeitiçava-se, perdia-se.
Encontrava-a em si. Encontrava-a nos pássaros, nas casas, nos caracteres de um qualquer código, no outdoor que o autocarro leva para longe, sem que saísse de dentro do seu peito. O olhar meigo e sensual, num misto de exotismo e doçura, era agora omnipresente
Pensava no desejo febril de largar tudo e de a ir buscar, como se cada segundo passado longe da sua beira fosse incontavelmente doloroso. E era.
Bebia as suas palavras e engolia-as. Sorvia-as. Era delas que se alimentava quando não a tinha por perto e nada mais lhe saciava o corpo e o espírito famintos do seu toque.
O "contentamento descontente", o riso estúpido incrustado na face e a inquietude que sentia, assustavam-no.
Mil interrogações lhe assombravam o espírito, mas pelo menos uma dúvida não lhe toldava a mente naquela noite, enquanto - à janela - aguardava a vinda do temporal profetizada no noticiário: não trocaria o desconforto que sentia por nada deste mundo.
Afinal...afinal era ela.
Figures au bord de la mer, Pablo Picasso
© Succession Picasso 2003

19 Outubro, 2006

Impulsos


Impulso: Movimento. Acção. Reacção. Proacção.
Fazem parte de nós e têm impacto nas nossas vidas.
Não há como ignorá-los...a verdadeira arte consiste em saber como interpretá-los, quando reprimi-los ou quando a eles nos rendermos.
Quem tiver um manualzinho, que me empreste, por favor, que já me dói a cabeça de tanto encontro com a parede.
E no entanto...ás vezes até pensamos que pode ter sido boa ideia... Quem sabe? ;)
Foto: Zona da OTA/Montejunto - RS

13 Outubro, 2006

O Ás do Século XXI

Horário alterado. Agenda de pernas para o ar. Malabarismo de horários e reuniões adiadas. Estômago em greve de apetite. Trabalho amontoado. O olhar no infinito e a cabeça no ar. A vista humedecida. A lágrima cadente no rosto sofrido. O murro na parede e o pontapé no cesto de papéis. O "click cognitivo". O sprint - à chuva - para o táxi. A corrida contra o relógio e contra o trânsito. O elevador que não aparece. A subida dos degraus 3 a 3 e o fôlego em alvoroço. O suor a escorrer-lhe pela testa e a gravata desalinhada. O rubro das emoções e da sua pele. O estrondo da porta aberta.
"Não vás. Fica. Comigo."
"Não posso. Tenho de me apresentar na Base ás 1400. Partimos em missão ainda hoje.", disse ela.
A sua farda azul parecia casar na perfeição com o estado de espírito dele e agora já nem a molha que tinha apanhado por correr à chuva ou o mesmo as gotas de suor conseguiam disfarçar as suas lágrimas. Ela ajeitou o boné na cabeça, puxou o brilho ás asas douradas e, passando por ele, abraçou-o como o tinha feito na noite anterior e em tantas outras. O cabelo estava agora apanhado e os sapatos pretos tapavam-lhe os delicados pés antes desnudados, mas o perfume de mulher, esse, ainda marcava presença.
"Mereces alguém que te possa dar tudo e eu...eu não te posso dar quase nada. Isto é melhor assim."
Voltou a pegar na pasta e na gabardine, deixou as chaves de casa no cinzeiro e deixou-o a ele entregue ao seu sofrimento.
Tinha visto um filme do género em miúdo, mas não se recordava que o final fosse assim. Havia duelos nos céus, explosões e uma história de amor, mas nenhum drama como este...e se a realidade ás vezes supera a ficção, o certo é que naquele momento a sua felicidade tinha voado. Para longe.
Foto: F-16 "Fighting Falcon" - Força Aérea Portuguesa

09 Outubro, 2006

Insónia em 2x1.6


Noite. Jimi Hendrix contava a triste história de Joe e do seu crime passional, polvilhando a canção com o virtuosismo da sua guitarra, quiçá, para amenizar o trágico acontecimento relatado. Assim soava do lado de cá das colunas de som.
Deste lado, a hora não era trágica nem tão pouco havia partilha do talento musical do génio.
Ele deambulava naquele espaço de 2x1.6 de um lado para o outro, esperando o sono que não chegava. 1500 metros de natação seguidos de 9 km de corrida tinham-lhe trazido o cansaço ao corpo, mas não a paz ao espírito. As voltas - em autêntica centrifugação - sucediam-se, imitando o passar das horas.
2x1.6. Um pequeno espaço que naquela noite lhe parecia imenso. Despovoado. Uma área limitada, onde não era hábito haver limites. Uma arena rectangular onde corpos se podiam degladiar. Um templo onde oferendas poderiam ser feitas, vezes sem conta...sem sacrifício algum.
2x1.6. Palco de teatro de sonhos, reduzido a apeadeiro de viagens por noites mal dormidas. Até ao amanhecer.
Foto: Rolling Stone

04 Outubro, 2006

Miragem

miragem, s.f. ilusão; decepção. (Dicionário Português, Porto Editora).


Agarrava-se às letras das músicas que o velho leitor de CD's lhe mandava, como se de uma tábua de salvação se tratasse. Queria manter-se à tona dos acontecimentos, desse por onde desse.
Fosse ou não agradável, fosse ou não próprio de alguma travessia de deserto, o certo é que as miragens o haviam atacado ultimamente. Partida da mente? Praga bíblica desencadeada contra ele? Enxame de pensamentos suspensos que o castigavam? Local errado à hora errada? Azar do c....? #%$%#%$?
Não sabia...nem tão pouco estava obcecado com tal resposta. Interessava-lhe mais o "porquê" do que o "quê".
O certo é que por quatro vezes em quatro momentos distintos, pensou vislumbrar um oásis no meio do nada e das quatro vezes mordeu o pó da ilusão onde pensava beber a água fresca do seu contentamento. Quatro oásis etéreos onde havia depositado os seus olhos, o seu pensamento e esperaria vir a depositar também o seu coração. Quatro nadas, de onde tudo floresceria. Quatro ilusões, como passes de magia negra.
Haveria mais miragens ao longo do caminho ou estariam os olhos já cansados da ilusão e o espírito já imune a tal fenómeno?
Mais miragens? Ele queria era descanso...
Foto: Tibete - Copyright 1995-2006, Mark Schumacher, www.onmarkproductions.com

30 Setembro, 2006

(O)Dor

Respirava o cheiro dela como quem inala uma substância proibida.
Não se tratava de perfume. Nada que se comparasse a um qualquer químico comprado numa loja à medida do gosto e bolso de cada um.
O cheiro! Aspirava os seus cabelos com as narinas, como se os sorvesse, detendo-se apenas por breves instantes para depois serpentear pelo seu pescoço. Ela soltava um risinho e depois um suspiro, à medida que a pele se arrepiava ante a presença do nariz e lábios exploradores.
O cheiro...sempre o cheiro. Odor inebriante, deleite mágico, instinto animal, apelo irresistível.
Pensava em tudo isto, enquanto agitava levemente o copo e respirava o "nariz" do vinho que se propunha degustar.
Poderia ele viver sem isso?
Cheirava-lhe que não...
L'Abraçada, Pablo Picasso

26 Setembro, 2006

Era o andar

Foto: Cindy Sherman
Era de noite. Não sabia ao certo porque tinha ido parar aquela festa barulhenta e cheia de fumo, mas simplesmente não lhe apetecia ir para casa.
Era amiga da amiga da amiga. Era uma sorriso cândido - quase inocente - aquele que, despertando-lhe os sentidos, o fez esquecer a música a martelo e o fumo dos cigarros que empestava o ar.
"Olá!". Era a primeira palavra proferida que instantanemaente ganhou contornos de melodia, à medida que ele percorria o seu olhar expressivo.
Era cool, o seu ar. Descontraído. Era ágil e ligeiramente desajeitado, o seu andar. "Deliciosamente desajeitado", recordou mais tarde.
Era bem disposta e apesar da timidez dele, a conversa evoluiu. O chinfrim da música de plástico levava a que tivessem de aproximar os lábios dos ouvidos e lóbulos um do outro, originando inusitados toques no braço, o que - naquele contexto - o obrigou a reconhecer algum mérito à música bem como ao DJ que a fazia passar em tão altos registos. Já Einstein explicara esse conceito relativo, pensou; porventura inspirado por alguma musa de olhar expressivo e pose descontraída...
Era o sorriso, o andar, a voz, o olhar ou a postura que o fascinava? Era reacção química, empatia mútua ou simpatia genuína? Não era nenhuma destas coisas. Eram todas?
Era tarde. Deixou-se ficar por lá enquanto o calor, o fumo e o cansaço não o conseguiram expulsar. A despedida pareceu-lhe mais emotiva que circunstancial, mas não era altura nem lugar para troca de contactos. Apenas um "até à próxima" que lhe soou reconfortante. Era como se se tratasse de um futuro próximo. Um breve trecho que ele pretendia que tivesse durado apenas uns instantes ou até ao dia seguinte. Assim não aconteceu...mas quando fecha os olhos, o andar desajeitado ainda o persegue. Afinal, era o andar.

23 Setembro, 2006

Sagrada Escritura



10:00. Tinha acordado cedo, para o acontecimento que tardava. 1 hora de espera para o protocolo que selaria parte do seu futuro nos próximos 40 anos. Começava a imperar a impaciência entre os actores da cena. Não se tratava de nervosismo - até porque nem se tratava de uma estreia - mas de uma irritação pelo tempo perdido, tendo valido o são convívio entre as diversas partes do negócio para amenizar o ambiente e ajudar a passar o tempo que se esvaía diante dos nossos pulsos.
O ar impávido e sereno procurava disfarçar alguma emoção em preencher e assinar tão importantes documentos e tão chorudos cheques.
No fim, concluída a cerimónia - porque afinal, também se tratava disso - o abraço junto da família vincou-lhe o sorriso para o resto do dia e ainda que nada mais contasse, só esse momento mágico teria feito valer a pena o enorme sacrifício e investimento envolvidos.
O sol escondia-se nos céus, mas iluminava o seu coração.

16 Setembro, 2006

Astronomia de bolso


Era navegando nos cabelos dela, à luz dos seus olhos e na miragem do seu sorriso que ele encontraria o seu norte.
Rosa. Dos ventos? Não...haveria nela qualquer coisa de astro celeste e que despertaria o Carl Sagan que havia dentro dele. Talvez uma estrela que brilhasse mais que 1000 sóis e que um dia o guiaria pelos mares revoltos da paixão e o levaria a bom porto, com a calma brisa de pequenos nadas de que é feito um grande amor.
"Aqui tem. Muito obrigado!" Era o empregado que lhe trazia a conta à mesa, interrompendo-lhe a viagem interestelar.
Para já, tratava-se apenas de uma estrela por descobrir, numa galáxia longínqua e sem nome.
Foto: NASA/JPL-Caltech

11 Setembro, 2006

Boa sorte, Wolverine!!


Domingo à tarde. O tempo corria com o vagar próprio de quem aguarda a sua vez nas urgências de um hospital. Cerca de 5 minutos para a inscrição e outros tantos para a chamada à triagem. Uma médica pouco feliz com o turno de fim-de-semana preenche novo documento e ordena que se aguarde novamente. Alguns minutos volvidos e nova incursão aos gabinetes médicos para breve auscultação e observação. No regresso à sala de espera, ficou a promessa de chamada para o RX, afinal, o principal motivo de tão bizarro programa de fim-de-semana.
Uma semana passada após aparatoso encontro imediato com o terreno pedregoso da Serra de Montejunto, o corpo teima em ressentir-se, causando dor incomodativa e dificultando a prática desportiva. Por via das dúvidas, aceitou-se a sempre penosa ida ás Urgências para despistar mal maior. Estariam as costelas apenas a queixar-se ou o sangue pisado que ia aparecendo indiciaria perigo? A dúvida subsistia.
A espera não deixava de o fazer divagar. Pensava acerca das feridas do corpo e da alma e de quais seriam mais facilmente curáveis. Tudo depende, concluiu. O aparelho de TV transmitia, em imagem amarelada (estaria também adoentado?) o filme dos X-Men. Pelos vistos, todos tinham problemas...até os mutantes! Uns procuravam salvar o mundo, outros apenas um par de costelas.
"Não respire!". Cerca de 50 minutos após a chegada, a radiação actuou sobre o seu corpo, expondo-o de forma pouco usual. Nova espera. Os X-Men continuavam em apuros, após os...X-ray dele. "Oxalá o desfecho aqui corra melhor", pensou...afinal de contas o Magneto estava a sová-los fortemente e porventura haveria já algumas costelas partidas, no mínimo.
"Aparentemente, não tem nada partido!", exclamou o 3º (!?) médico que o observava a si e - mais - ás radiografias, apresentando um sotaque de Leste e um humor bem mais saudável do que a sua congénere lusa. Ouvida a frase mágica, passada a receita e apenas 1 hora e meia depois da entrada, foi tempo de sair dali a passo apressado. Não era certamente um dos seus spots preferidos e o Domingo não esperava por ele.
Desconhece-se o desfecho do confronto dos X-Men.
Boa sorte, Wolverine! :)

09 Setembro, 2006

No Noo Bai

Foto: PhotoMorphine
LX, 23:20. Com o gigante por perto.
A noite quente acompanhava os sons musicais que se faziam ouvir e piscava o olho à esplanada. Lotada. Oportunidade para conhecer o interior da última e tardia descoberta na Capital, antes de tomar de assalto uma mesa recém-desocupada.
Em boa companhia tertuliana, a conversa correu, pedindo meças ao rio que, lá em baixo, tão envergonhado e escondido no escuro, nem um só retrato permitiu...e mesmo que o resto da noite não tivesse sido em alta, só a descoberta deste local prazeiroso, simples mas diferente, já teria feito valer a pena mais uma incursão ás entranhas e arredores do bairro mais alto da cidade.
A regressar em breve.

07 Setembro, 2006

Just a Thought


Guardo o gosto do teu hálito e recordo o calor das tuas mãos.
Sinto-as ainda a afagar-me o rosto enquanto miro as pedras preciosas incrustadas no teu.
Reconheço esse riso traquina, esse humor corrosivo, essa sensibilidade sem bom senso, debaixo dessa capa despreocupada.
Será que ainda ouço o que os teus olhos me dizem?
Será que ainda me alimento com as palavras que a tua boca me dá?
Será que ainda vejo o mundo através das (tuas) linhas?
Será que ainda aqueces a minha mão com a tua?
Será que ainda me fazes voar contigo na imensidão do nada?
Será que ainda queres?
E será que eu ainda quero?
Não quero visitar velhas ruínas decrépitas, espaços devolutos, destroços de uma derrocada. Também deixei de construir castelos no ar...eram pouco seguros e é aborrecido habitá-los sozinho. :)
Apenas fiquei curioso em saber como ficaria ali um novo edifício, construído de raíz, com novos alicerces. Just a Thought.

"The Source", Ingres

03 Setembro, 2006

O som do Oceano


"Rough Sea at Etretat", Monet
Uma imensa sensação de vazio preenchia-o, na calma melancolia do entardecer.
À beira-mar plantado, as ondas traziam-lhe ecos, recordações da conversa da noite anterior. Sete após sete, a espuma das vagas insistia em pintar de negro o quadro que ele pretendia claro...como uma tela pronta a receber as primeiras pinceladas.
Mais um semi-relacionamento-semi-assumido que resolveu terminar. Um semi-amor a que se tinha acostumado, mas que nunca tinha criado as raízes necessárias a um frondoso relacionamento.
Estaria semi-arrependido? Não. Tanto quanto a vida o tinha ensinado, não havendo certezas absolutas, estava semi-certo do rumo que tinha traçado e da decisão semi-difícil que tinha tomado. Pensar no bem comum, não se resume ao dia a dia e o semi-egoísmo da continuação da "paz podre", deu lugar ao semi-altruísmo de dizer "basta".
Junto a si, as pessoas passeavam, ignorando o que lhe ia na alma e pouco se importando com o seu estado de semi-nudez e aparente semi-consciência, de olhos postos na linha do horizonte.
Perto de si, os seus amigos construiam as suas vidas "a dois" - embalados pelo sopro da felicidade - ou já "a três", embalados pelo sopro da fertilidade. Por vezes, sentia-se algo estranho. Algo a meio caminho entre o último dos moicanos e o primeiro dos otários. Qualquer coisa entre a figura de resistente e a figura de urso, digamos.
Outras vezes, não. Apenas alguém que não gostava de se entregar a uma situação de conveniente semi-felicidade.
O vento frio empurrou-o de volta ao carro, onde a voz de Djavan o recordou da paisagem observada, apenas instantes atrás.
"(...)Amar é um deserto e seus temores,
Vida que vai na sela dessas dores(...)"
Ao sentir que o amor teimava em abandoná-lo, uma imensa sensação de vazio continuava a preenchê-lo, na calma melancolia do anoitecer.

01 Setembro, 2006

(Passa) Rápido


O tamanho da força que nos leva é incomensurável.
Não podemos remar ou nadar rio acima...mas podemos escolher o rio pelo qual pretendemos descer a encosta da vida.
Foto: Google

29 Agosto, 2006

No Quarto Crescente


A falta de sono invadia-lhe o corpo, juntando-se ao intenso calor abafado que se fazia sentir no quarto. Janelas abertas, as cortinas ganhavam vida, mexendo-se languidamente ao sabor da tímida brisa.
Procurando orientar-se na claridade espásmica da luz de néon da cozinha, resgatou uma água das pedras do frio e empoleirando-se na janela, sentou-se no parapeito, à semelhança do que costumava fazer quando miúdo. Aparentemente, a janela tinha diminuído desde a sua última visita, mas isso não o demoveu da postura contemplativa com que prescrutou o horizonte inundado de luzes, o clarão da metrópole ao fundo e as estrelas, intimidadas com tanta luz, mas ainda assim resistindo e completando o quadro visual.
Distraído, distante, ausente nos seus pensamentos, o líquido escorria-lhe pela garganta e pelo pescoço abaixo, a cada gole, refrescando-os. Chegou mesmo a puxar do tabaco do bolso da camisa, antes de se dar conta que tinha deixado de fumar. Em breve, o seu recanto iria mudar de sítio, a sua vida iria entrar numa nova fase e nada voltaria ao que era.
Para trás ficaria uma vida inteira. Uma pele que estava agora prestes a cair, sucedendo-lhe uma outra e dando sequência a novo estágio de desenvolvimento.
Outra janela, outras luzes. Outras histórias a outras paredes confessadas ou entre elas vividas. Outro pacto de silêncio com elas celebrado...outros pensamentos? Só as estrelas o iriam acompanhar, pensou. Tímidas, no meio das luzes da ribalta. Como ele.

27 Agosto, 2006

Morte Lenta

Foto: Cindy Sherman
Fico um pouco mais surdo, a cada palavra que deixas de dizer.
Fico um pouco mais cego, a cada vez que deixo de ver o teu rosto.
Fico um pouco mais empedernido, a cada vez que me tratas como pedra feia e gasta.
Morro sempre um pouco, a cada vez que te negas a dar vida ao meu desejo.

21 Agosto, 2006

Hamlet Arejado



Noite de brisa fresca, mas agradável, em cenário de ...regalar os sentidos.
Elenco jovem, sem estrelas, à excepção das que polvilhavam os céus.
Eis os condimentos para um serão diferente, assistindo a interpretação original de "Hamlet".
Amor, ódio, intriga, conspiração e morte, em mais uma lição Shakespeariana sobre a mente humana e o comportamento dos Homens.

18 Agosto, 2006

Vieja Amistad

Vaga de jantares.
Comemorativos ou por razão nenhuma.
Simplesmente jantares. Copos. Cafés.
Dois dedos de conversa entre dois tragos, duas garfadas ou dois bafos.
Actores de peças há algum tempo representadas, companheiros de armas de guerras já passadas, mas não esquecidas. Jogadores de desafios já disputados e equipas já desfeitas. Partidas efectuadas, peripécias tantas vezes relembradas, contadas...de gargalhadas acompanhadas.
Resistentes estóicos ao embrutecimento civilizacional a que nos vamos votando, de casa para o trabalho deambulando, para casa do trabalho regressando.
De jantar em jantar, de encontro em encontro, de café em café, assim vamos lutando.
Obrigado, amigos, por estarem presentes.

17 Agosto, 2006

Piratas na Tempestade


Photographer: Ian Britton
Adivinho os teus quentes pensamentos, enquanto divago nos húmidos trópicos das tuas coxas.
Murmuras a reza antiga da luxúria - da qual somos fiéis seguidores - à medida que a borrasca de sensações se aproxima no horizonte e tu navegas nos meus cabelos e traças a rota nas minhas costas.
Dilúvio de prazer, vento de loucura desregrada. Abordagem sem pudores. Peleja sem quartel.
Apodero-me dos teus tesouros e entrego-te os meus. Fazes-me prisioneiro do teu corpo, de onde não quero escapar, por mais que tente sair. Uma e outra e outra vez.
As ondas do oceano de suor invadem-nos...e nele seguimos viagem.

16 Agosto, 2006

Alcatrão, para variar

Noite de tertúlia. Jantarada com vagar, em ambiente descontraído e proporcionado - mais uma vez - por generoso anfitrião.
Honrando Baco, o vinho jorrou em provas cada vez mais elaboradas, complexas e exigentes, dados os conhecimentos adquiridos por uns e os anos de "tarimba" de todos.
Por entre impropérios e enxovalhanços de pronto perdoados, a "fuga" consumou-se ás 3 da manhã, ponto de viragem limite para o desafio da manhã seguinte. Cedo!
Primeiro estranhando o químico, mais tarde agradecendo a sua vinda, o organismo recebeu o "Guronsan" ainda em jejum, mas com o substancial pequeno-almoço já na mira. O corpo, já destreinado das maratonas vínicas, digeriu com dificuldade os primeiros km - porventura os mais facéis - fazendo temer o pior para a contagem de montanha que se avizinhava e obrigando a abastecimento de emergência na Praia Grande. Alimentado o corpo com a Bola de Berlim e o imaginário, com os muitos bikinis que por ali se passeavam, foi tempo de encarar a montanha, rumo a um dos locais mais belos, património de todos nós. A escalada, sofrida, corre ainda assim melhor do que o previsto, a ponto de uma senhora - porventura enganada pela cara aparentemente descontraída dos atletas - parar o automóvel à frente dos ciclistas em plena rampa e perguntar se "O «castelo» da Pena é ali para baixo". Fintado o obstáculo, respondida a pergunta - sem parar - e com Monserrate à vista, foi tempo de rumar aos Seteais, pairando no espírito do autor a dúvida sobre se a lenda que deu nome ao local não envolveria antes um ciclista cansado e em plena ressaca ao invés dos amores de uma princesa Moura.
Experiência agradável e para repetir. Fica a promessa de para a próxima - e com o corpo bem dormido e sem resquícios do néctar dos Deuses - tentar alcançar a pedal o palácio, onde - com Pena nossa - não pudémos guiar a desorientada turista, desta vez. Temos PENA!

07 Agosto, 2006

Sombras

Photograph by James L. Stanfield© 1998 National Geographic Society.
Ver e/ou ser visto.
Eis ao que se resume e no que se torna algo que em tempos se julgou eterno e agora é apenas etéreo.
Eis o que se constata, numa era de comunicação sem paralelo.
Palco gigante, onde, de quando em vez, apenas um dos actores vislumbra o outro ou a sua sombra.
Ecos de um evento social; visões de um objecto outrora partilhado, à imagem de vidas passadas.
Não. Não existe ruído na comunicação. Antes um silêncio que grita a continuidade da vida que não espera, apesar das sombras se moverem, quando nos distraímos e não contamos com elas.

As baleias assassinas


Podiam ser apenas focas, mas dadas as dimensões consideráveis, há muito que ultrapassaram esse patamar. Moviam-se em grupo, vagarosamente. Seus corpos tremiam e estremeciam o chão movediço que pisavam, a cada passada. Acompanhadas das suas crias, estas guinchavam desalmadamente como se estivessem a ser desmembradas por tubarões, levantando areia a cada repentina passagem. Instalaram-se junto ao posto de observação do incauto cientista, não mais do que a palmo e meio da sua toalha, para ser mais preciso.
Orcas? Nada disso. Estas moviam-se em terra, como referido, e eram seguramente mais barulhentas e corpulentas que as congéneres marinhas. Julga-se mesmo - por razões ainda não estudadas - que estariam já precavidas para um possível período (longo) de escassez alimentar, tal a quantidade de reservas acumuladas
Assassinas? Certamente. Assassinas do bem estar. Assassinas do descanso de quem, a breve trecho iria retomar o ritmo infernal de mais uma temporada de trabalho. Até ao próximo oásis de férias...
Com tantas sereias por aí a dar à costa, algures, ou a cair nas artes de algum afortunado pescador e logo havia de suceder este verdadeiro atentado ambiental.
É nestas alturas que muita gente se questiona sobre se a caça à baleia não fará, nalgumas circunstâncias, algum sentido...

05 Agosto, 2006

Deserto


Local inóspito. Árido. Gélido ou tórrido, mas também propício à contemplação e à introspecção. Deserto de idéias? Mente deserta? À parte as idéias para posts - não obstante o retiro sabático das férias - a mente fervilha, qual imagem de dunas ondulando ao sabor do calor.
Do deserto, seja ele da mente ou não, nem sempre brota vida, palavras ou idéias que mereçam ver a luz, de tão obscuras que possam ser, mas num espaço, real ou virtual, onde os elementos são tão rigorosos e o ambiente por vezes tão adverso e hostil, fica a esperança de que essa purga nos purifique, seja caminhando nas dunas sob um calor abrasador, seja percorrendo os tortuosos labirintos do nosso âmago.

11 Julho, 2006

Farol...


No breu profundo, fecho os meus olhos e vejo os teus, brilhando, lá, ao longe.
Farol para me guiar na escuridão? Não. Embuste para me conduzir aos rochedos, onde tantas vezes naufaguei.
Sopra, vento. Dá vida ás minhas velas e faz-me navegar para não mais regressar aos soçobrantes penhascos de onde jurei escapar, a cada braçada que dava, nas gélidas águas da amargura.
Foto de PSantos

07 Julho, 2006

The Simple Things

Sobe, procura, acha e irrompe. Invade. O Sol entra por entre a fresta, iluminando as calmas águas, desenhando-lhe na cara o esboço do primeiro sorriso do dia e conseguindo o que - aparentemente - a água não tinha conseguido: acordá-lo!
O relógio corre, voa, quando se faz o que se gosta e a aula chega ao fim. Tempo do duche, da barba, do segundo pequeno-almoço e da corrida para o Metro que não espera por ele, nem por ninguém. A viagem, de pé, não lhe faz esmorecer o sorriso que o Sol lhe plantou no rosto nem o demove de sacar do seu caderno e explanar o sentimento de bem-estar que lhe vai na alma. As estações sucedem-se e a caneta toca o papel, já saudoso desse contacto.
« Sobe, procura, acha e irrompe. Invade. O Sol entra por entre a fresta...»
Há dias em que as pequenas coisas nos trazem uma felicidade profunda. É bom estar vivo.

06 Julho, 2006

Pensamento (azedo) do Dia

Os ingleses inventaram o penalty, mas os franceses inventaram a expressão "Dejá vu".
Estranhamente, ou talvez não, as duas conjugaram-se ontem.
O Croissant estava estragado, esperemos que o joelho de porco - e não, não estou a falar do joelho do árbitro - seja de mais fácil digestão.
Bon Apetit!
P.S. Apesar de tudo e de não morrer de amores pela França, a minha sincera homenagem a um senhor do Futebol.

29 Junho, 2006

Greve a Metro


A situação é grave...aliás, é greve.
Os trabalhadores reinvindicam e o país pára. Deixam de se fazer cirurgias nos blocos operatórios e os comuns mortais atrasam-se para os seus empregos. A minha pergunta - e respectivo desabafo - vai no sentido de questionar se alguém se dá ao trabalho de fazer as contas a quanto custa tudo isto a todos nós, contratempos à parte. Tomemos o exemplo da greve do Metropolitano - do qual sou utente diário - e façamos um pequeno exercício académico...apenas contas de merceeiro.

Ora bem, segundo notícias divulgadas, a greve do Metro prejudicou a vida a mais de meio milhão (leram bem!) de pessoas, em cada um dos dias. 500.000 pessoas que tiveram de utilizar transportes alternativos apinhados e desorganizados, onde nem os motoristas sabiam onde parar. Suponhamos que dessas 500.000 pessoas, 40% optou por levar o carro, 40% utilizaram os transportes alternativos e 20% outros transportes públicos. Uma vez que normalmente não somos muito racionais no uso do automóvel, digamos que essas 200.000 pessoas circularam em 120.000 viaturas, metade a gasolina e metade a gasóleo, gastando em média 8 litros em circuito citadino e percorrendo - também em média - cerca de 50 km para ir para o emprego e voltar para casa. Como bem sabemos e a Galp informa, a gasolina 95 está a 1,343 Euros/Litro e o gasóleo a 1,068 Euros/Litro.

Isto perfaz então:

50 Km = 4 litros consumo

60.000 * 4 litros * 1,068 + 60.000 * 4 litros * 1,343 = 256.320 + 322.320 = 578.640 Euros
578.640 Euros * 2 dias greve = 1.157.280 Euros

Debrucemo-nos agora sobre os transportes alternativos que foram colocados à disposição. Imaginemos 100 autocarros, transportando 100 pessoas de cada vez, num percurso médio de 15 Km que terão percorrido umas 10 vezes para cada lado. Suponhamos que um autocarro, com aquele grande motor e carregado de pessoas, consome pelo menos uns 50 Litros aos 100 km. Ora, temos então:

100 autocarros * 100 pessoas *20 viagens = 200.000 (pessoas) ;-)

100 autocarros * (15km*20 viagens) = 30.000 km
30.000 km a 50 litros/100 dá 15000 litros de gasóleo, o que perfaz:
1.068 Euros *1500 = 16.020 Euros
Em 2 dias de greve, são 32.040 Euros, só em combustível.

No TOTAL, temos 1.189.320 Euros, só em factura de combustíveis.

Claro que a isto teríamos de somar a parte maior e mais dificilmente comensurável: as facturas energética (pelo desperdício) e ambiental (pelo aumento substancial de emissões de gases), o custo de aluguer dos transportes alternativos, a quebra de produtividade pelos atrasos dos utentes e das restantes pessoas, uma vez que a greve prejudicou todos, etc, etc, etc...isto é só a ponta do iceberg e o post já vai longo!

Serão as reinvindicações dos trabalhadores assim tão importantes para eles, que tenham de fazer 2 dias de greve numa semana? O que estará em causa no acordo social de que não possam abrir mão? Não discuto...estão no seu direito.... Será mais caro para o Metropolitano de Lisboa e para o País, satisfazer as suas reinvindicações ou pagar tudo o que acabei de referir de cada vez que há greve? Fica para reflectirmos... O que eu sei é que estou farto de greves a Metro...e ás vezes ponho-me a pensar na ironia do nome de algumas estações!;-)




24 Junho, 2006

Natureza Luxuriante


Quero ver o fim dessa estrada.
Beber a água dos teus rios.
Explorar os cumes e os vales das tuas encostas.
Gozar o brilho que emanas.
Conquistar o teu respeito.
Quero deleitar-me com as tuas flores.
Colher o pólen dos teus terrenos férteis.
Cheirar o teu doce perfume inebriante.
Quando sopras o teu vento nos meus ouvidos.
Uma e outra e outra vez.

14 Junho, 2006

Descanso do Guerreiro


Sentado na esplanada, saboreava o café, modestamente polvilhado com doce tempero. Alternava a visão, ora mirando o horizonte povoado de casas e pintalgado de árvores, ora observando o espelho onde antes se banhara.
Numa mesa ao lado, uma rapariga de aspecto interessante que lhe havia chamado a atenção, desfiava um rosário de queixumes, críticas e ameaças veladas ante um amigo compreensivo e uma restante plateia envolta num misto de tentação coscuvilheira e de desaprovação pela atitude de pública exposição da crise de alcova. Mais um casamento de 2 anos, já em aparente grave crise.
A cada pequeno gole, a cafeína pareceu sedar o efeito corrosivo das palavras e da irritação de quem - incauto no seu merecido descanso - nada tinha perguntado sobre a vida alheia. Olhou para o céu e fechou os olhos, protegendo-se da claridade. Sinal divino ou não, começou a pingar, provocando a debandada geral da esplanada. A imagem relembrou-lhe programas da vida selvagem, sobre manadas de mamíferos em fuga, há muito visionados. Num lado, fugia-se dos predadores e buscava-se água; aqui, fugia-se dela e depredava-se relacionamentos.
O cheiro de terra molhada atingiu-lhe as narinas e fê-lo sentir-se feliz por não estar no escritório. A moeda deixada na mesa foi o último acto de um momento - apesar de tudo - bem passado, na calma correria de um dia de descanso.

Lei de Murphy

Depois de semanas a fio de intenso calor, por vezes sob a torturante máscara de "sôtor" (leia-se, de fato e gravata), eis que chega a minha semana de férias. Finalmente! Humm...a antecipação da praia, a previsão do bronze a esbater as olheiras do trabalho, a adoração do astro-rei! Mas...qual astro? Só se for o Figo ou o Ronaldinho! Parece que o sol também tirou férias na mesma semana que eu...mas - nitidamente - não calhou ser no mesmo sítio.
Querem ver que também foi assistir ao Mundial!?


05 Junho, 2006

666


Ora bem, daqui a uns poucos minutos estaremos no dia 6, do mês 6, do ano 6.
Para os mais supersticiosos, aqui fica o aviso do dia....para os menos superticiosos, também fica o aviso...para podermos gozar o prato, ou melhor, o número!
Vale tudo menos chamar besta ao autor...

Males que vêm por bem ?

A dor de parto.
A dúvida sobre 2 pratos de comida, 2 empregos ou 2 peças de roupa.
As lágrimas de tanto rir.
O cansaço depois da prova física superada.
"La petite mort"
O vício da amizade.

01 Junho, 2006

Mens sanam in corpus sanum



A vida também é feita de ciclos, de fases, de um renovar constante de emoções, sensações, de um alargar de interesses, gostos e objectivos.

Não sou um super-homem, mas gostava de fazer um triatlo. Trabalho bastante e ás vezes (muitas), parece que o dia não chega. Simplesmente, não rende. Gostava de ter mais tempo para mim.
Agora, decidi procurar uma forma de perseguir esses dois objectivos: natação, 3 aulas por semana, ás 07:30.
Provavelmente, daqui a bocado, quando o despertador herege atentar contra a santidade do meu sono, ao mesmo tempo que lhe dou uma solução final, vou amaldiçoar a hora em que tive esta triste ideia e tomei esta decisão, mas vai fazer bem. Melhora a condição física, aperfeiçoa a técnica, faz bem à saúde e estrutura o dia de uma forma inimaginável de uma outra forma...como se passasse a ter mais horas!!
E agora, vou dormir, que já estou atrasado...

30 Maio, 2006

SB-SR

A tertúlia evoluía, ao som dos acordes metálicos e ao ritmo do "headbanging". Reunidos para disfrutar dos pesados timbres, os amigos riam e partilhavam emoções, por entre sabores e sensações próprios do contexto, convenientemente suavizados por um retemperador pão com chouriço.
O astro mudava, em tons neons que tinham muito de belo e qualquer coisa de alucinógeneo, preparando-se, também ele, para o climax musical da noite, aguardado por todos.
Música após música, banda após banda, ao segundo dia, o cansaço ia cobrando o seu preço, instalando-se no corpo de cada um, até que um ou dois acordes electrizaram o grupo da tertúlia, à semelhança do impacto produzido na multidão. A massa humana movia-se agora para a frente e para trás, alternando, compassadamente, uma lânguidez aparente com golpes mais acertivos, sob o comando dos pratos de choque ou de uma nota do baixo. Os músicos, quais flautistas de Hamelin, conduziram o público a quase 2 horas de êxtase e no final, para além de terem conquistado (pelo menos) mais um fã, a opinião de que os "Tool" tinham mesmo sido "the best for last" era unânime. Assim foi.


24 Maio, 2006

Mãos

Gostava de repousar as minhas mãos em ti, enquanto o Mundo se cansa, lá fora.
Queria que me encantasses com as tuas palavras e que me saciasses com a tua boca, mesmo que houvesse fome, lá fora.
Era bom poder fazer-te voar comigo, para longe, sem sairmos daqui, onde outros não alcançam nem vislumbram.
E depois tapar-te de noite, para que não te constipasses.
Só falta descobrires-me. E eu descobrir-te a ti. E dar-mos as mãos.
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"A mão na mão, pode ser, e é tantas vezes, a suprema carícia"
Fernando Namora

21 Maio, 2006

Eterno abraço

Percorria a estrada das suas costas desnudadas, com a ponta dos dedos. A sua mão, veículo transmissor de sensações, fazia-a arrepiar, num misto de nervosismo e prazer, enquanto lentamente se voltava, para o encarar de olhos semi-cerrados. Passou a mão pelo seu peito e - vendo que retribuía o arrepio antes provocado - sorriu encantadoramente. O tal "killer smile" que o tinha feito a ele perder-se naquele rosto exótico, sensual e bondoso e perder o autocarro, só para se continuar a sacrificar mais um pouco naquele altar de olhos escuros, que agora o trespassavam, numa imagem estonteante que a luz proveniente das frestas dos estores iluminava. Passou-lhe a mão pelo rosto. Suavemente. Queria mimá-la e certificar-se de que estava mesmo ali. Para si. Uniram-se então num abraço intenso e apaixonado. Forte e meigo. Quente e saudável. Não mais se largaram, mesmo quando adormeceram, exaustos. E viveram felizes, não sabiam se para sempre, mas pelo menos e indubitavelmente, até a manhã seguinte.

17 Maio, 2006

Hey, blondie! You know what you are??



A poeira pairava em seu redor, como que animada. Olhou para cima e o clarão levou-o a semi-cerrar os olhos, fazendo uma careta involuntária. Mirava agora as barras (seriam grades?) que tinha diante de si e hesitava em utilizar a pistola. Talvez não fosse aquele o seu destino. Talvez não devesse sequer ali estar. Sentia-se a terminação de um longo braço que o impelia a premir o gatilho. Estava looonge... uma música épica invadiu-lhe o espírito, parecendo até ocupar-lhe os ouvidos. Uma voz soou, provocando-lhe o espasmo do susto a que chamamos "salto".
- Ó pááá! Vamos mas é a despachar o servicinho!!
Um reflexo fê-lo premir o gatilho, mas o som balístico e o sangue de quem o tinha assustado deram lugar a um monótono - quase lúgubre - "Bip!"
- Anda lá mas é com isso, que o PDT não trabalha sozinho no código de barras e eu estou farto de estar neste armazém a comer pó, #$#%(vernáculo oportunamente omitido pelo autor)!!
"Ai, que saudades dos filmes de cóbóis! Dava-me um jeitaço que isto agora fosse mesmo um Colt", pensou, no momento anterior a expelir o ar dos seus pulmões com desmesurada força.
A noite prosseguiu, ao som dos Bips, como se de um duelo se tratasse, entre a máquina e os nervos de cada um.

11 Maio, 2006

Terminal

Terminal de autocarros, terminal do aeroporto, terminal de táxis. Terminal.
Terá a quantidade de vezes que as relações terminam nestes locais, alguma coisa a ver com a escolha do nome? Terminal. Doente Terminal. Fase terminal. Nome Infeliz!
Dos filmes á vida real, vai um passo. O abraço emotivo e apertado, a lágrima não disfarçada, a expressão da tristeza plantada no rosto. O alívio da mentira, o "até à próxima" que ambos sabem que não haverá.
Este verdadeiro fim das coisas (e das viagens) não deixa de ser também o início de muitas outras (viagens incluídas).
Apenas o nome, soturno e sombrio, teima em assombrar o local de tantas peripécias da vida, umas más, outras boas.
E posto isto...vou terminar.

08 Maio, 2006

Rolando sobre a insanatez

Sábado, 10:30, algures na Lezíria.
O sol mordia-lhe os braços, parecendo inofensivo a início, mas queimando a pele incauta.
Por entre silvas, flores e espinhos, pedalava, inalando o ar puro do campo e fechando a boca para não engolir nenhum "txaroco" :).
A seu lado,logo ali em baixo, o rio corria sossegado, mas avisando-o de que o faria pagar caro, caso tivesse um deslize.
O estreito carreiro serpenteava - oprimido entre o curso de água e uma vala - contrastando com as amplas sensações de liberdade, alegria pela vida e felicidade imensa que o percorriam. O sorriso largo invadiu-lhe a cara, sem pedir licença, e à medida que o parco caminho se alargava agora um pouco, o vislumbre de uma cegonha a voar para junto do seu ninho no rio, contrastou com a visão do grande pássaro metálico que, acima dos dois, procurava migrar para outras paragens. Uns chegam, outros partem.
"Viste?", gritou para o seu companheiro de aventura. "Vi, pá! Espectáculo! E ainda me perguntam como é que sou maluco ao ponto de não ficar a dormir a manhã toda para vir para aqui dar ao pedal!", respondeu-lhe.
As silvas deram, a pouco e pouco, lugar ás casas, as casas daqueles que não vêem a garça, não respiram o ar, não se sujam na lama nem se esfolam nas quedas na terra dura; aqueles que não sentem o sol e que lhes chamam malucos. A eles.
E os dois lá seguiram, passando pontes, atravessando estradas, levando o rio ao seu destino e prosseguindo caminho, felizes por não serem lúcidos o suficiente para estar a dormir.
Anda mesmo muita gente a dormir.

04 Maio, 2006

Stats


Bem...uma semana depois do repto lançado, é pois, tempo de fazer um balanço dos resultados:
Votos de Boa Sorte: 1
Tentativas de aproveitamento para reptos alheios: 1 :)
Pedidos de Esclarecimento: 1
Candidaturas Recebidas: 0
Constatou-se ter havido uma fraca (inexistente) adesão por parte das visitantes. As razões subjacentes a tal fenómeno serão agora tema de aturado estudo, meticulosa análise e reflexão aprofundada por parte do autor, contando este, para esse efeito, com os imprescindíveis contributos de Mr. Stolichnaia, ilustre russo que prima pela transparência das suas análises, e do Dr. Ferreira, natural do Porto e sumidade em assuntos relacionados com a dicotomia Sonhos Dourados VS Pura e Dura realidade. De sublinhar ainda, o apoio de Mr. Bushmills - conhecido escocês - o qual nos colocou à disposição a sua ampla biblioteca em Malt(a), local onde se levará a cabo a primeira sessão de trabalhos, estando prevista a realização da segunda na localidade de Sagres.